11 Agosto 2006
O grito Wilhelm
Pense bem, é uma resposta importante. Não, não é o bolo de laranja da sua mãe. Tente de novo, é alguma coisa mais presente na sua vida. Não, pegar ônibus lotado só prova que você é um mané. Resposta errada de novo. Ah, isso mesmo! É o grito Wilhelm!
Como todos estão cansados de saber, o grito Wilhelm foi gravado em 1951, para um western da Warner chamado Distant Drums, com o Gary Cooper. Em uma das cenas, um soldado é atacado por um jacaré e puxado para o fundo do lago até a morte. Como esse soldado não era bobo, ele gritou e esperneou. Só que o grito, no cinema, muitas vezes é gravado depois. Foram seis, todos eles rotulados como "homem sendo mordido por jacaré e gritando" (é assim que se rotulam os sons, para uso posterior). Um deles foi usado naquela cena, e os outros -- muito parecidos -- foram usados em cenas de ataques contra índios no mesmo filme.
E daí? Eu também não assisti a Distant Drums, mas já ouvi esse grito mais vezes do que eu consigo contar. Como os sons ficam arquivados, podem ser reutilizados em outras produções. Dois anos depois, num outro western, o som foi usado quando um personagem chamado soldado Wilhelm é atingido por uma flecha. Ele ainda foi usado mais algumas vezes em filmes da Warner dos anos 50, até sumir por uns 20 anos, quando Ben Burtt, editor de som de um filme independente que estava pra sair chamado estranhamente de Star Wars resolveu desenterrar o dito cujo e usá-lo em todos os seus filmes como uma marca registrada. O problema é que esse cara ficou famoso e fez MUITOS filmes. E fez MUITOS amigos, que gostaram da brincadeira. Assim, mais de 70 filmes gritaram com Wilelm, incluindo todos os Star Wars, todos os Indiana Jones, a grande maioria das animações da Disney, todos os Lord of the Rings, além dos filmes do Tarantino e até de um longa da Sailor Moon. Hoje em dia há pelo menos dois filmes em cartaz nos cinemas que usam o pobre: Monster House e Pirates of the Caribbean 2. Sem contar as inúmeras séries de tv e até videogames (tente matar o Goro com o Johnny Cage em Mortal Kombat I)
Veja se você não reconhece:
O curioso é que não se tem confirmação de quem gravou o grito originalmente. Ben Burtt procurou nos arquivos de Distant Drums e o mais perto que chegou foi o nome de Sheb Wooley, um cantor e ator não creditado em vários westerns (praticamente um figurante), que foi chamado para gravações de áudio posteriores. Ele morreu em 2003, antes de ser procurado para esclarecer o caso.
Moral do dia: nunca se esqueça do copyright, ou seu salto duplo twist carpado pode passar de Dos Santos para Wilhelm.
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04 Agosto 2006
Os Vários Apocalipses de Coppola
Francis Ford Coppola devia estar bem acostumado a adjetivos como “megalomaníaco” durante as 370 horas de filmagens nas Filipinas de sua obra Apocalypse Now. Meses de esforço, rios de dinheiro e muita teimosia foram necessários para finalizar o filme a tempo do festival de Cannes de 1979. Mesmo com a Palma de Ouro nas mãos, o diretor e produtor considerou o filme “a work in progress”, devido à pressa na montagem da obra.
Vinte e dois anos depois somos agraciados com bem mais do que um novo “director’s cut” caça-níqueis de um sucesso de Hollywood, como exorcistas e ETs afins. Redux, em latim, significa algo que foi trazido de volta, resgatado. Assim está Apocalypse Now Redux: reeditado, remixado, restaurado, talvez o melhor termo seja repensado. Agora podemos ver 53 minutos que escaparam à primeira versão, espalhados em muitas cenas que acrescentam muito à densidade do filme.
Densidade, aliás, é o que não falta à obra. Vários filmes poderiam ser tirados de Apocalyspe. A grande estetização da guerra das cenas como a do ataque dos helicópteros a uma vila vietnamita ao som de Wagner e a da batalha num posto avançado, com direito a trincheiras e pedido de ajuda pelo rádio já renderiam boa bilheteria por si sós (alguém se lembra de Falcão Negro em Perigo?). A discussão sobre a necessidade do conflito armado e o envolvimento forçado dos soldados com uma guerra que não lhes pertence (linha mestra do outro clássico do Vietnã, Nascido Para Matar) e que pode ser visto em personagens como Chef, o hippie de New Orleans que só queria aprender a cozinhar, ou em cenas como o encontro com a orgulhosa família de colonizadores franceses, onde o lado mais politizado do filme transparece, também fariam outro (bom) filme inteiro.
Mas o créme de la créme do filme é mesmo a adaptação (bastante fiel, vejam só) da pequena obra-prima de Joseph Conrad, Coração das Trevas. O Marlow do Império Britânico deu lugar ao Willard do exercito americano. Ambos foram imbuídos da difícil tarefa de subir o rio em direção ao inferno, encontrar e destituir o tirano, mas ainda assim genial e intrigante capitão Kurtz de seu pequeno império no coração das trevas. Quanto mais Marlow/Willard se embrenha na escuridão da não-civilização, quanto mais medo e destruição se passam ao seu redor, mais fascinado por Kurtz ele fica, mais ele compreende seus métodos, mais ele se transforma, de certa forma, em seu algoz. A estranha fortaleza de Kurtz e sua pequena legião de súditos que parecem estar em transe preparam os nervos até que o encontro com Kurtz finalmente acontece, e toda a genialidade de Vittorio Storato, o diretor de fotografia, aparece: Curiosos, ouvimos a voz assustadora de Marlon Brando, fraca, modulada, filosofando e questionando Willard e esperamos a câmera enquadrá-lo. Ele está deitado, e ainda não se vê seu rosto. Finalmente, ele se levanta. Dá para ver sua cabeça raspada, mas seu rosto está imerso numa sombra angustiante. Ainda por algum tempo a sombra permanece, até a primeira frase mais ameaçadora ser pronunciada e seus terríveis olhos azuis finalmente aparecerem. É de gelar a espinha...
Isso tudo sem falar no Robert Duvall bombardeando uma aldeia para ter onde surfar, no Dennis Hopper tentando provar a grandiosidade do capitão Kurtz, nas coelhinhas da Playboy e na maravilhosa The End, da banda The Doors na abertura do filme.
Toda essa multiplicidade de temas e riqueza de detalhes, porém, acaba por se tornar talvez seu maior defeito. Uma obra tão complexa precisa estar muito bem amarrada para conduzir o espectador por mais de três horas. Quando se está na fortaleza de Kurtz, à luz oblíqua, é difícil lembrar do “Cheiro de Napalm pela manhã” do início do filme. Apocalypse Now Redux é mais denso que o próprio livro que o inspirou. Pode ser necessário parar e respirar fundo antes de continuar para, sem sobrecarregar a mente, se absorver todo o conteúdo. Só não dá pra ficar sem ver.
17 Maio 2006
Tabula Rasa
Quando temos, digamos, 10 anos, um ano acrescenta um décimo a mais em nossa vida. A base de comparação é muito pequena e cada dia parece que demora pra passar. Quando temos 50 anos, um ano não passa de uma nota de rodapé no caderno, um cinquentaavos de existência. Como o tempo é praticamente o mesmo para todos (já que ainda não chegamos na velocidade da luz), abastecemos nossos cérebros na mesma velocidade, sejam eles um copinho de requeijão ou uma piscina olímpica.
Seguindo esse raciocínio, é estranho pensar que simplesmente não nos lembramos de nada da eternidade que foram nossos primeiros 2 ou 3 anos de vida. Devem ter sido longos, com tudo absolutamente novo, marcando nossas mentes em branco com tinta forte, mas arquivados na pasta escondida do "subconsciente". Adoro quando vejo um bebê de poucos meses observando a própria mão. Ele olha, gira, olha em cima, embaixo, mexe os dedos, toca as enormes bochechas, e - o objetivo supremo - tenta engolir a mão inteira.
Algumas das coisas que aprendemos se fixam como uma espécie de arquétipo. Para mim, por exemplo, passarinho sempre vai ser, primeiramente, ligado com o monte de pardais que vivem em Araraquara. Eu sabia de pombos e outros pássaros, mas passarinho mesmo, eram os pardais. Quando falam em árvore, eu também ligo imediatamente com os abundantes Oitis da terra natal. Mesmo anos depois, dos 10 aos 15 anos, algumas coisas me marcaram ao ponto de me influenciarem para sempre, como os livros do Julio Verne e os contos do Edgar Allan Poe. Eles criaram um novo padrão de comparação na minha cabeça, onde tudo que veio depois é posto na balança junto com esses primeiros.
Esse ciclo se repete vez por outra, novos padrões são adicionados (Umberto Eco, o cinema do Stanley Kubrick e o som do Led Zeppelin são exemplos mais recentes), e a vida vai crescendo.
Mas me sinto um pouco incomodado por perceber que o período mais importante da minha vida, a "programação", o que mais formou o meu jeito de ver o mundo, também é o que eu menos me lembro. Gostaria de saber o que estou perdendo.
24 Fevereiro 2006
Todas as Artes
Eu gosto de cinema mais do que gosto de outras artes. E acho que isso é porque o cinema é a arte onde todas as artes se encontram. Da literatura do roteiro às artes plásticas dos cenários, da música da trilha sonora à dramaturgia dos atores, o cinema entrega uma experiência completa, diverte e faz pensar, enche os olhos e os ouvidos.
Ou não.
Eu dizia que o que me incomodava no teatro era que o cinema o tinha superado em tudo. Não havia nada que o ator pudesse fazer que não ficasse melhor captado numa câmera, com possibilidades de enquadramento infinitamente maiores que o enquadramento único da poltrona do teatro, que ainda corria o risco de pegar um lugar muito no canto e perder metade da ação. Nenhuma "interação com a platéia" era suficiente para aplacar a sensação de que você poderia estar assistindo a uma apresentação medíocre, dentre tantas que os atores repetem noite após noite. O protagonista podia estar com o nariz entupido, imagine só, e toda aquela presença marcante do personagem podia ser arruinada por uma "vraze valada de um jeido beio ezguizido". Isso sem falar na própria interpretação do teatro, que exigia que o ator declamasse tudo muito alto, com pouca sutileza, sob pena do coitado da última fileira precisar assistir a peça com auxílio de uma daquelas mocinhas que moram no canto inferior direito da tv, que ficam gesticulando feito loucas nas missas eletrônicas.
Esse parágrafo cheio de verbos no pretérito imperfeito, como dá pra notar, serve pra mostrar que minha opinião mudou. Mudou justamente num dia em que eu a divulgava aos quatro ventos, durante uma visita guiada ao Theatro Mvnicipal (adoro grafias arcaicas) de São Paulo. Horas depois, fomos assistir a uma peça no Sesc Pompéia chamada Pulando Muros, da companhia XPTO.
O cenário é um campo de concentração, com arame farpado e postos de vigia. A diferença é que isso não está num palco, está na platéia. Entramos em fila por um túnel de arame farpado. Uma barricada de cadeiras de plástico emaranhadas divide o galpão. Um dos espectadores avança cauteloso e pega uma das cadeiras. Todos o acompanham e procuram um lugar pra sentar. Começa uma disputa pra ver quem põe a cadeira mais à frente, chegando quase no final do cenário. Uma sirene soa e o muro da frente começa a se mover em nossa direção, o que faz com que todos, entre sustos e risadas, se espremam no fundão. A parede volta e libera espaço para o "palco". Militares aparecem no alto de um muro recém instalado e fazem propaganda de um condomínio fechado e ultra-seguro no melhor estilo (011)1406. A platéia é convidada a morar nele, e a passagem para o outro lado do palco é liberada. Quando metade das pessoas passou para o lado de lá, fecham a entrada e dividem o público em dois. Parabenizam os privilegiados e desprezam os excluídos, pobres coitados que, em outra oportunidade, quem sabe... Isso é só pra deixar o palco no centro e começar a peça própriamente dita.
O que se segue é uma montagem genial sobre governos totalitários, rebeldia, relações humanas e limites, físicos, ideológicos, psicológicos, tudo com uma cenografia inteligente e dinâmica, onde grandes cubos de metal servem de muro, casa, caixa, prisão... Destaque para uma cena onde cobrem os cubos com plástico e enchem de gelo seco. Dentro deles, os atores reinterpretam pedaços de cenas do início da peça, em câmera lenta, surgindo da névoa e voltando a sumir, fantasmagóricos. A peça ainda conta com a temida interação com a platéia, mas de uma maneira tão envolvente que nem eu, um ferrenho opositor da prática, neguei entrar na brincadeira e ajudei no final redentor do espetáculo.
Isso não quer dizer que o teatro superou de alguma forma a minha paixão pelo cinema, mas serviu para derrubar aquela velha ideiazinha adolescente de que uma mídia é melhor do que outra. Experiência completa, nenhuma arte consegue dar. Isso é papel da vida. Se bem que, pelo menos em um aspecto, o teatro tem uma gravíssima desvantagem sobre o cinema: quem viu, viu, quem não viu, paciência. Não dá pra alugar na locadora nem comprar na internet. Uma pena.
Eu também vou tomar mais cuidado ao divulgar minhas opiniões aos quatro ventos. Semanas depois da peça, eu falava que a única coisa que realmente me incomodava em São Paulo era o trânsito. Que a poluição e a violência não me incomodavam porque raramente me atingiam. Naquela mesma noite me apontaram uma arma para a cabeça e levaram o carro que eu dirigia. Maldita boca.
20 Janeiro 2006
Mais do Mesmo
Do outro lado, mas ainda no País da Boa Música, estão as bandas legais. São bandas completamente inacessíveis a quem não passou pelas bandas grandes, ainda que seu som seja tecnicamente inferior. São bandas como The Flaming Lips, Primal Scream e Teenage Fanclub. Bandas que, mesmo com um um som grudento, simples e de letras engraçadinhas'barra'românticas, acabam ganhando fãs no real sentido da palavra, fanáticos, seguidores mais devotos que os que vestem camisetas pretas adornadas com cabeludos mal encarados do metal pesado.
Mas por que, afinal, pra gostar de Yo La Tengo é necessário ter o ouvido acostumado com Beatles e afins?
Porque as bandas legais só são legais por um motivo: elas reciclam (ou digerem, como queiram) várias pequenas inovações que as grandes bandas fizeram e acrescentam um pouco de cotidiano, de conversa mole, de dilemas que já foram resolvidos.
Aliás, o que é a nossa vida além da repetição de dilemas previamente resolvidos por outras pessoas em outras épocas? Chegamos uns após outros invocando os mesmos problemas, encontrando as mesmas soluções. Vez por outra, uma combinação sai excêntrica demais, e algo realmente novo surge, como um riff de Jumpin´Jack Flash. Claro que isso não nos impede de ter uma vida única e inovadora, pois mesmo Mozart ou Spielberg tiveram seus momentos de serem pegos cutucando o nariz ou de terem que escolher entre decepcionar alguém e decepcionar a si mesmos. E isso na maior parte do tempo.
Ouvir bandas legais é como ler uma crônica. É como assistir a um episódio de Anos Incríveis ou ler uma tirinha do Calvin. É se olhar no espelho, mesmo que não seja muito profundamente, sentir pela primeira vez aqueles mesmos sentimentos que todo mundo já sentiu antes. E gostar.
04 Janeiro 2006
Fear and Loathing in Rio de Janeiro
Encarem isso como o filme Lost in Translation. Não é um tratado oficial sobre um lugar estrangeiro, é apenas uma fatia de cotidiano subjetivo.
Depois de quase cairmos num buraco de uns 5m de profundidade que simplesmente brotou no meio da calçada, percebemos de quantas nós escapamos todos os dias. Segue uma breve lista:Mas nós concordamos que a maneira mais interessante de se morrer no Rio é tentar pronunciar porrrrrrrta com o sotaque deles e engasgar com a própria saliva.
- Queimaduras de terceiro e quarto graus por causa do sol;
- ser atropelado no meio da rua por ônibus, moto, carro ou caminhão;
- ser atropelado no meio da calçada por ônibus, moto, carro ou caminhão;
- ser atropelado dentro de casa por ônibus, moto, carro ou caminhão;
- cair num estrategicamente colocado no meio da calçada;
- cair do alto de um morro;
- cair em um valão (um canal de esgoto a céu aberto);
- beber água contaminada;
- comer comida contaminada;
- ser mordido por um mosquito contaminado;
- ser mordido por um cachorro doente;
- ser mordido por um rato doente;
- ser mordido por uma criança doente;
- urina de morcego na cabeça (sim, aconteceu comigo);
- estar no lugar errado na hora errada e levar um tiro certo;
- não informar as horas com um sotaque suficientemente engraçado e levar um tiro;
- levar um tiro sem motivo;
- intoxicação por causa da poluição;
- intoxicação por causa da fumaça de pneus queimados;
- ser atingido por um balão de São João e morrer em chamas;
- ter a cabeça decepada por linha de pipa;
- ser mordido por uma lacraia no chuveiro;
- morrer com a explosão do chuveiro;
- morrer com qualquer outro tipo de explosão;
- ser atravessado por um vergalhão enferrujado pendente de um muro qualquer;
15 Novembro 2005
Mil Quilômetros

Em outro post eu falei em como o Google Earth colocou em perspectiva o meu mundo. Pois bem, dia desses, brincando com a ferramenta que mede distâncias do programa, descobri algo que me colocou mesmo no meu lugar. Depois de achar o extremo oposto da terra em relação ao lugar onde nasci (um ponto no mar, ao sul do japão) e de sair medindo nerdisticamente tudo quanto é canto, resolvi descobrir o quanto eu conheço de fato do mundo. Medi os extremos do mundo que já visitei e descobri que a maior distância não passa de mil quilômetros. Sim, patéticos mil quilômetros, entre Camboriú, que visitei em 2000, e o Pico da Bandeira, em 2002.
Eu era o pior dos caipiras, que nunca pisara fora do próprio quintal em 23 anos de vida. Todo o conhecimento que tenho do mundo além dessa barreira foi adquirido "por tabela". Na prática, eu sabia empiricamente quase tanto quanto algum camponês da idade média, por exemplo.
A diferença é que eu não me sinto, nem nunca me senti alienado assim. Com 3 anos de idade eu já sabia que a Itália tinha o formato de uma bota. Com 8, eu sabia como funcionava a cadeia alimentar nas planícies da África de tanto ver programas educativos na Cultura. Hoje eu sei diferenciar e imitar um sotaque escocês ou australiano sem nem mesmo ter conhecido gente de lá.
Extendendo o assunto, provavelmente conheço a alma humana mais por ter lido Dostoiévsky e visto Antes do Amanhecer do que por ter vivido revéses na minha própria vida. Isso é triste e difícil de admitir. Não que minha vida tenha sido exatamente tediosa, ou que eu não tenha querido aprender nada com ela, talvez seja a quantidade de informação "formal" que sufoque os pequenos aprendizados práticos do dia-a-dia.
Li (ou vi, o meio é irrelevante) em algum lugar uma pesquisa que comparava a eficácia da mente em registrar informação aprendida na teoria e na prática. Como era de se esperar, vivenciar qualquer coisa fica muitas e muitas vezes mais bem registrado na memória do que apenas ler sobre o assunto.
Quero crer que ainda vou ter chances de fixar melhor o que tenho absorvido de segunda mão. Viver os dilemas de um Raskolnikov, ou mesmo de um personagem de Magnólia, tirar minhas próprias conclusões de outros povos e de si mesmos como o casal de Lost In Translation, ou quem sabe só aprender a aproveitar mais a rotina que tenho, mesmo que a barreira dos mil quilômetros não seja quebrada tão cedo.
15 Outubro 2005
Geopolítica
Se a USP fosse a Europa, a ECA seria a Romênia. A única vantagem em ser a Romênia é não ser a Albânia, que é a FFLCH.
Atr. Luli Radfahrer
Desdobrando o raciocínio, vejamos:
A Sanfran está mais pra Inglaterra, isolada e aristocrática. A Medicina pode ser a Suíça, alheia a tudo que acontece ao redor. A FAU, a Itália, com grande importância artística, mas pouca influência política. A FEA é a França - já que os óbvios Estados Unidos ficam do outro lado do Atlântico. A Poli é a Alemanha, claro. A Bio fica bem de Suécia. A Veterinária, a Espanha. Odonto, Dinamarca. A Holanda acomoda a Química com conforto. A Psicologia é a Bélgica e a FOFITO é a Finlândia. Mais alguém?
27 Setembro 2005
O que enobrece o homem
Pra dizer a verdade, são mais de oito horas por dia que eu vendo por um pouco de dinheiro. Dinheiro pra sobreviver por mais 8 horas e dormir ainda outras, me preparando pra voltar ao trabalho.
O problema nem é o trabalho em si, ele pode (e deve) ser legal, instrutivo, divertido, e ajudar no desenvolvimento humano sim. Mas se esse mesmo trabalho for em uma mesma sala (ou cubículo!) fechada todos os dias da sua vida, eu vejo uma úlcera, um enfarto ou pelomenos um problema de coluna no caminho.
Eu gostaria mesmo era de trabalhar por projeto. Você se mata dois ou três meses ralando 14 horas por dia em cima de um trabalho, e depois pára por mais dois, descansando, planejando novos projetos, viajando, se dedicando a coisas relevantes pra sua vida e pros próximos projetos.
Numa rotina normal, eu consigo ler mais ou menos um livro por mês, a maior parte dele entre os solavancos do ônibus e as pescadas antes de dormir. Não posso simplesmente separar duas ou três horas seguidas pra ler porque elas simplesmente não existem, e, quando existem, o cansaço fala mais alto. Com dois meses seguidos sem rotina, posso tirar dias inteiros só pra isso. Claro que nos meses anteriores eu não teria tempo de ler nem outdoor (o que não chega a ser uma desvantagem, no caso), mas é o preço que se paga...
Pode ser só inconformismo juvenil, mas a idéia de passar anos e anos da vida como caixa de supermercado é tão atraente quanto furar os olhos com agulha quente. Pense, em que isso acrescenta o seu progresso pessoal? Claro, você vai conhecer gente nova todos os dias. Vai virar craque na maquininha do Visa Electron. Vai descobrir que existe diferença de qualidade no fornecimento de saquinhos plásticos, e que isso varia conforme o faturamento do supermercado. Vai aprender a lidar com os tipos mais excêntricos da vizinhança. Vai virar expert em leitores laser. Aliás, você poderia estudar sobre lasers, poderia aprender a ler código de barras sem o laser, poderia estudar contabilidade e entender como redes de supermercados faturam tanto, mas, apesar dos 80 guichês do seu supermercado, nunca mais do que 10 funcionam ao mesmo tempo, o que elimina qualquer hiato de mais de 3 minutos entre um cliente e outro. Seis meses depois, você passou por tudo que um caixa de supermercado pode passar. Um ano depois, se você ainda não virou um autômato, vai ser substituido por um. Que bom. Menos um emprego estagnante no mundo.
Talvez eu precise de férias.
11 Setembro 2005
As Horas
Ela nao iria perdoar, não desta vez. Diria que uma coisa dessas não se faz, que se ele realmente a amasse, nunca desprezaria dessa forma um trabalho de mais de seis meses. Diria também que tinha aprendido (numa palestra de etiqueta corporativa, vejam só) que deixar alguém esperando é um grande sinal de arrogância. Era como se ele quisesse deixar claro que ela não era mais importante que dez minutos a mais de sono, ou que a maldita piadinha no final do Seinfeld. Não era possível, ele sabia muito bem o quanto ela se importava em ter tudo sob controle, especialmente o horário. Já não bastavam as centenas de quilômetros de engarrafamentos que faziam com que ela saísse duas horas antes de qualquer compromisso noturno, ela ainda tinha que contar com os atrasos do folgado. Pior, ela tinha avisado o cara-de-pau a semana toda, em ligações e mensagens, tinha relembrado do evento na noite anterior e, antes de sair, três horas antes, tinha ligado uma última vez, já que não levaria o celular (gafes polifônicas estavam entre as mais abomináveis, dizia), e enfatizado que ele não poderia chegar tarde. Claro, ele nem tinha entrado no banho ainda.
Por sorte, ela tinha decidido que ele não a pegaria em casa, iria cada um com seu carro mesmo, ela não podia se dar ao luxo de ficar à mercê da irresponsabilidade dele. Agora ela estava no lobby, contando os segundos como se tivessem apertado o grande botão vermelho do juízo final e que os vinte minutos restantes para o início da apresentação fossem os mesmos que lhe restavam de vida. E que maneira de passar os últimos minutos de vida! Esperando!
Esperando e espremendo as mãos suadas, apoiando os cotovelos nos joelhos, deselegante, e logo voltando a sentar ereta, incomodada, inconformada. Cruzando e descruzando as pernas, mexendo no cabelo cuidadosamente arrumado, conferindo toda a papelada na pasta, o cd estava lá, o roteiro também. Tomara que o Power Point colabore como no ensaio de ontem, pensou.
O pescoço esticava para tentar ver por cima das pessoas que chegavam, como se seu olhar pudesse percorrer aqueles corredores, sair pela porta, fazer o trajeto até a casa dele e puxar, como um raio trator dos filmes de ET, o desgraçado de debaixo das cobertas. Cada ser vivo que entrava no lobby era alvo de uma análise cheia de esperanças onde, num primeiro milésimo de segundo, era definido se a silhueta combinava com a dele. Então, em caso afirmativo, um segundo milésimo de segundo servia para comparar com cabelo, roupas e a cara de paspalho que ela conhecia, odiava e amava e, acima de tudo, precisava tanto. A cada negativa, ela tentava empurrar com o olhar a pessoa rejeitada, para dar espaço à que vinha atrás.
O relógio seguia, constante e incansável, agora faltavam cinco. Ela não podia esperar mais. As pessoas estavam se sentando, ela tinha que ir para o seu lugar, lá em cima. Aguentaria mais dois minutos ou cinco pessoas, o que viesse primeiro. Só por ela ter tomado essa decisão, passaram-se intermináveis trinta segundos antes que a primeira pessoa aparecesse. Mulher. Feia, ainda por cima. Ela a odiava pelo simples fato de não ser ele. Odiava também o recepcionista, tão amável com as pessoas, mas que não se dignava a sair de seu posto e buscar o atrasado. Odiava também o casal, segunda e terceira pessoas, respectivamente, que chegava esbaforido, pelo fato de eles, sem dúvida, terem cruzado com o carro dele no caminho e dado uma fechada, ou entrado na última vaga de estacionamento do quarteirão.
A quarta pessoa, homem - metade da altura dele, provavelmente - levou quarenta segundos tentando achar o convite em todos os bolsos existentes e imaginados de seu terno. Era óbvio que ela o odiava também, embora com um pouco mais de dó.
Dezessete segundos. Ela se preparava para virar o rosto em direção ao salão, mas seus olhos ainda estavam na recepção. A esperança é a última que morre. Mas morre. Foi uma morte fria, que deixa uma bola negra de vazio no estômago. As pernas se moveram, ela tentava esquecer para poder se concentrar na apresentação. Viu, com os olhos detrás da cabeça que ela herdara da mãe, um vulto entrando no salão. Virou o mais rápido que pôde sem perder o equilíbrio. Notou que o vulto tinha a altura certa. No milésimo seguinte, ela descobriria se era mesmo ele se não tivesse acordado, em um salto, no sofá do seu apartamento. Olhou o relógio, foram exatamente quarenta e cinco segundos de sono repentino. Ele estava na porta, arrumado, adiantado, impecável, dizendo, Você não vai mais?
16 Agosto 2005
The Next Generation
Você resolve encarar o novo dia e se levanta. A margarina do seu pão é de má qualidade, igual ao seu xampu e ao seu carro, mas você nem percebe, a falta de oferta desestimula a demanda.
Se você for mulher, meus pêsames, você dormiu mal tentando não estragar o permanente do cabelo, vai ter que usar batom vermelho, brincos de argola do diâmetro de pulseiras, calça acima do umbigo e, pasme, blusa com ombreiras. Sim, ombreiras.
Se você for homem, sua sorte não é menos sombria. Basta dizer que seu modelo de beleza é algo que inclua o bigode do Magnum e o mullet do McGyver.
Reagan e Thatcher massacraram tudo que foi sonhado nos anos 60 e 70, deixaram que os irmãos caçulas dos hippies, de terno e gravata, tomassem conta do mundo. A involução foi tão séria que O Bebê de Rosemary virou Freddy Krueger, Todos os Homens do Presidente virou Rambo e Laranja Mecânica virou Porky's.
Encrustrado nesse império, um pequeno vilarejo (que poderia estar na Gália) sobreviveu e se fortaleceu. Se fortaleceu baseado em alguns fatores: Apesar da má-qualidade geral da produção cultural, os quadrinhos viraram coisa séria, com graphic novels que exploraram psicologia e política, como Watchmen e Dark Knight.
O Heavy Metal teve sua era de ouro, incorporando elementos da música erudita e ficando realmente ensurdecedor.
O RPG se consolidou, aproveitando elementos do recém criado universo cyberpunk e resgatando a obra de Tolkien, cultuada pelos hippies e por George Lucas.
Surgiram os Videogames e os computadores começaram a se tornar pequenos o bastante pra caber numa mesa.
Todos esses elementos contribuiram para a criação daquele que é o símbolo da resistência oitentista:
o nerd - aqui representado pelo traço do nerd supremo, Matt Groening.A gestação de uma geração de nerds começou no fim dos anos 70, é verdade, mas foi no final dos 80 que eles ganharam voz ativa na sociedade. Gente como Bill Gates e Steve Jobs abriu a possibilidade de ser nerd e rico ao mesmo tempo, um feito absolutamente impensável até então. Matt Groening e Kevin Smith foram além: bem-sucedidos, divulgaram o estilo nerd como "legal" em suas obras, expondo a sociedade a níveis perigosos de piadinhas por segundo, e sempre dando um jeito de encaixar alguma referência a Star Wars.
A internet amplificou o alcance de nerdisse exponencialmente. No início, apenas nerds sabiam fazer home pages, assim o usuário comum ia se contaminando com listas de discussão sobre o Monty Python, salas de chat de trekkies e páginas e mais páginas de passwords e truques de video games.
Mesmo com toda essa divulgação, a raça está fadada ao extermínio. A falta de atividades físicas e de traquejo social torna os nerds seres pouco desejáveis para o sexo oposto. Uma pena que isso não aconteça com integrantes de boy bands, que insistem em espalhar perigosamente seus genes pelo mundo.
16 Julho 2005
Enter the Matrix
Seu funcionamento é simples, baseado na análise extrapolativa da matéria, onde, a partir de uma parte aleatória do cosmos, como um pedaço de pão-de-ló, por exemplo, toda a vastidão, todo o incomensurável tamanho e amplitude do Universo, bem como sua história desde o surgimento, suas civilizações, guerras, modismos, programas de tv, cada grão de areia de cada asteróide, é mostrado num só instante, somado a uma pequena seta vermelha indicando "Você está aqui". O infinito contraste entre o gigante Universo e a insignificante vítima quebra o espírito de qualquer ser vivente, que percebe que o mundo definitivamente não gira em torno de seu umbigo e, se não morre instantaneamente, fica irremediavelmente catatônico para o resto da vida.
A razão de ele ter sido inventado por alguém que queria irritar sua esposa não é importante para este post, mas é melhor explicada na fonte, o segundo livro da série O Guia do Mochileiro das Galáxias, O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams.
O primo pobre do Vórtice de Perspectiva Total foi lançado dias atrás pelo grande deus google e se chama Google Earth.
Lembra daquela animação no final de Men In Black, quando a câmera vai subindo, subindo, subindo, sai da Terra, do sistema solar, da galáxia, até mostrar o Universo dentro de uma bola de gude de um ET? É mais ou menos o que o Google Earth faz, com fotos de satélite da Terra inteira (INTEIRA!), sobre um esqueleto 3D, que pode ser movimentado, girado, ampliado e inclinado. O resultado é tão impressionante que dá pra ver desde uma região inteira, detalhes do relevo como o Everest e o Corcovado, até imagens bastante detalhadas das cidades maiores, como a USP ou a minha casa. Tente digitar o nome de absolutamente qualquer cidade do mundo (tipo Caparaó, Brazil), que ele acha. Em alguns lugares (leia-se EUA), dá pra achar qualquer endereço. Com um pouco mais de prática, dá pra descobrir bancos de dados adicionados por usuários com curiosidades como "John Lennon viveu aqui", ou "o lado mais fácil para escalar esta montanha". Dá também pra colocar a câmera no nível da rua e "passear" por Manhattan, por exemplo. Literalmente um mundo virtual.
O que mais me impressionou, entretanto, foi o fato de ter, pela primeira vez, uma noção real de perspectiva do tamanho das coisas. Ver a Terra distante se aproximando, definindo continentes, países, regiões, vendo florestas e rios, vendo a mancha cinzenta da cidade se transformar em pequenos prédios até chegar na própria casa é, no mínimo, revelador. Mostra, entre outras coisas, que (a) o mundo é grande, (b) nós somos pequenos, (c) tem lugar pra todo mundo e (d) viver em Diadema não é tão ruim assim, vocë podia ter nascido no deserto de Gobi.
O programa ainda tem muito pra progredir, como fazer o mundo inteiro (e não só as grandes cidades), em alta definição e ampliar a cobertura de endereços e estabelecimentos comerciais, mas isso é só questão de tempo. Will you take the Red Pill?
04 Julho 2005
Guerra dos Mundos
Passar o 4 de julho numa casa com três americanos republicanos não é pra qualquer um. Bandeirinhas abundam, e a ânsia por fogos de artifício só é (mal) confortada pelos rojões constantes dos traficantes do Complexo do Alemão. Felizmente, o dia transcorreu tranquilo, ninguém teve rompantes ufanistas-patrióticos. E isso é um avanço. Não que eu seja contra os EUA, pois não sou. Seria como ser contra o automóvel, por exemplo. Polui, mata, mas também traz muitos benefícios. Nem por isso eu cantaria o Hino do Automóvel no dia de sua invenção...
Acho que não tenho idade suficiente pra entender a vantagem do patriotismo. Basicamente, ser patriota é ter orgulho e do lugar de onde se vem, certo? E defendê-lo sempre que necessário, certo? Gostar dos seus. Isso cheira demais a segregação pro meu gosto. Por que eu tenho que torcer pra um cidadão que eu nunca vi mais azul na minha frente? Vou usar um exemplo mais extremo: o carinha que foi preso na Indonésia com quilos e quilos de droga e agora foi condenado a morte. O que nos une? O fato de comermos arroz e feijão todos os dias? Termos nascido numa mesma região com o mesmo clima? Falarmos a mesma língua? Assistirmos à Globo?
Tenho muito mais afinidade com um finlandês que leu Edgar Allan Poe na adolescência ou com um marroquino que gosta de fotografia digital do que com qualquer jogador da seleção brasileira.
Saber quem você é, descobrir suas origens e aprofundar as relações com as pessoas mais próximas são alguns dos bons resultados do patriotismo. Acontece que há caminhos muito melhores, que evitam passar pelo "sou brasileiro e não desisto nunca".
Como se governa uma área geográfica com milhões de pessoas que tem pontos de vista às vezes completamente diferentes de como se devem administrar as coisas? Um povo não deveria pensar, pelo menos em alguns pontos essenciais, da mesma forma? Se não pensa, ainda é um povo?
Só não consigo imaginar uma olimpíada sem fronteiras. Já toquei no assunto aqui. As modelos ganhariam provas que exigissem leveza. Os devotos de Nossa Senhora ganhariam medalhas em provas de resistência. Marxistas levariam provas coletivas. E os canhotos? ganhariam o quê?
01 Julho 2005
The horror, the horror!
Corta para o caixão, improvisado, de madeira recém-serrada, ao lado de um feixe de incenso queimando. A mãe do falecido, debruçada sobre a tampa, chora vigorosamente. A criança se aproxima, com o retrato ainda nas mãos, e chora também.
Mais um corte, o caixão está sendo baixado. A mãe, inconformada, se abaixa e tenta pular na cova, gritando pelo filho perdido. Dois homens a puxam de volta, consolando o inconsolável. São cenas longas e tristes, 3, 4 minutos terríveis.
Corta para um enorme jardim, verde, com um lindo lago sombreado pelas árvores. No terço esquerdo do quadro, um homem de uns 60 anos, óculos de aro grosso e terno risca de giz é identificado como General Westmoreland, um dos principais líderes dos EUA na guerra.
Visivelmente desconfortável, o Gen declara pausadamente, escolhendo as palavras:
The Oriental doesn't put the same high price on life as does the Westerner.Sim, é exatamente o que você leu. Ele disse: "Os orientais não valorizam tanto a vida como os ocidentais. A vida é barata no oriente". Entre outras coisas que eu não me lembro palavra por palavra.
Life is cheap in the Orient.
Seu nome é emblemático. Não quer dizer nada literalmente, mas Westmoreland lembra algo como "terra mais ao ocidente", "das terras mais ao ocidente" ou quem sabe "mais terra para o ocidente".
Em outra cena, um militar tem uma conversa com um grupo de crianças de 7 ou 8 anos numa escola americana. Elas faziam as perguntas. Uma delas quis saber como era o Vietnã. Ele respondeu "Se não fosse pelas pessoas, seria um país bonito. Eles são um povo atrasado e não civilizado." Em outra cena, um líder vietnamita diz "Nós temos 5 mil anos de história. Nos defendemos durante séculos da China. Durante décadas da França, e nos defendemos agora dos Americanos."
Isso faz parte do documentário Hearts and Minds, rodado no calor da hora no vietnã e nos EUA, um filme panfletário, feito com o propósito bem claro de mostrar os horrores da guerra aos americanos. É praticamente o pai do Michael Moore.
Também como Michael Moore, Peter Davis manipula o filme do começo ao fim. A sequência descrita no começo é só um exemplo. Também comete o erro de ouvir só um lado da história (apesar de ser o lado mais fraco), o que enfraquece a idéia de documentário. Mas, diferente de seu sucessor, Davis aparentemente não põe palavras na boca de ninguém e nem supõe teorias conspiratórias assim ou assado. Ele constrói sua mensagem com imagens e depoimentos como um escritor faz com palavras. Sua retórica, entretanto, parece muito mais honesta do que a do gorducho de Michigan, além de ser mais contundente. Afinal, ninguém passa incólume ao ver a menina queimada de napalm correndo pela estrada. Como disse um dos veteranos mutilados e arrependidos sobre os EUA, naquela guerra "nós não estávamos do lado errado. Nós éramos o lado errado".
16 Junho 2005
Indubitavelmente
Foi o que ela ouviu do companheiro de tantos anos, assim, sem razão. Porque indubitavelmente não era uma palavra para todos os dias, nem para todos os usos. Podia ter sido um sim, claro, sem dúvida, é, com certeza, é lógico, aham, como não, positivo, isso mesmo, todos seguidos de ponto final, ou um ou mais pontos de exclamação enfatizando, desconfiando ou simplesmente exclamando, mas por que indubitavelmente?? Nem era uma palavra bonita. Era um tanto arrogante, mas decidida e elegante. Algo parecido com o Al Pacino de mau humor. E, é claro, é uma palavra que não deixa dúvidas. Igual ao Al Pacino. A não ser desta vez.
O que ele quis dizer com aquilo? Que ele era melhor do que ela? Que, na verdade, a pergunta dela não tivesse assim tanta importância? Que todos aqueles anos juntos nos quais a palavra indubitavelmente nunca fora mencionada e as coisas estiveram tão como sempre estiveram, no fundo não foram suficientes? Era isso, ele iria trocar seu relacionamento por um advérbio?
Talvez não. Talvez fosse quase isso. Talvez as coisas estarem tão como sempre estiveram fosse um problema a ser combatido. Indubitavelmente iria abrir as portas para Transubstanciação e Verossimilhança, e um novo mundo polissílabo de compreensão e amabilidade iria aflorar entre eles.
Foi o que aconteceu. Ela aprendeu a conviver com o indubitavelmente. Gostou, tanto que hoje em dia se recusa a usar menos de 3 sílabas por palavra. Mesmo que a pergunta que tenha iniciado tudo isso tenha sido um breve "você me ama?"
30 Maio 2005
Diálogo de Fim de Tarde
Ela pensava em falar. Falando, começaria com as bicicletas e a tranquilidade que elas transmitem.
- Como assim?
- Olha lá, aquela moça, despreocupada. Não dá pra imaginar a mesma expressão num carro no engarrafamento.
- É, o problema é quantidade. Se todos tivessem a mesma idéia de usar bicicletas, ela teria a mesma expressão de marginal parada.
- Mas ela não está. Todo mundo não teve a mesma idéia. Ela está tranquila, é isso que estou falando. Não precisa desenvolver uma teoria existencialista em torno disso.
- Ei, calma, foi só uma observação, era pra ser engraçado, não a causa da guerra santa.
- Esse é o seu problema, sempre tem que ter um porém.
- Eu não quis--
Se olhavam. Ele deste, ela daquele lado da mesa. A toalha quadriculada sugeria uma legítima cantina, mas os guardanapos de papel liso e ineficaz lembravam que não passava de uma lanchonete barata com uma vista legal. A luz lateral refratava nos fios de cabelo dela, deixando um rastro dourado em seu rosto.
Ele pensava em falar. Seria algo sobre como ele gosta quando a luz pega de raspão no olho dela.
- Eu gosto quando a luz pega de raspão assim no seu olho.
- Por que?
- A íris faz sombra nela mesma, dá uma textura muito mais bonita.
- Não é muito confortável.
- Mas é bonito.
- Uma história recorrente no universo feminino. Do espartilho ao salto alto.
- Ninguém aponta uma arma pra cabeça de vocês pra usar salto.
- Experimenta não usar gravata no trabalho e vê o que acontece.
- É só uma questão de combinar com os outros. Se ninguem usar, ninguém vai reclamar.
- Então vai. Pega o telefone.
- Você vai usar tênis?
- Vou usar tênis, camisa larga, sem maquiagem, sem sutiã e sem depilação.
- Ei, calma lá, sem depilação também não...
- Vamos mudar o mundo. Diga não à cera quente.
- Não precisa mudar o mundo. Mude para a França. Só não me convide.
- Vou é abrir uma comunidade no orkut...
Se olhavam. Ele deste, ela daquele lado da mesa. Uma corrente de ar fresco trouxe junto um agradável arrepio. Os bancos vazios, de couro falso, refletiam a luz do sol no teto, formando figuras abstratas que vibravam quando o garçom esbarrava nas mesas. Os dois pensavam em falar. Quando iam abrir a boca, chegou o garçom e trouxe o sanduíche e o milk shake. Comeram calados.
17 Maio 2005
Teoria da Evolução
Então aconteceu o assalto. Tínhamos viajado quando levaram tudo de casa (felizmente meu Nintendinho estava comigo), inclusive a tv. A TV! O manancial infinito de informação e entretenimento! O que eu iria fazer da vida?
Uma tia nos emprestou um radinho durante uns 3 meses destelevisionados. Eu passei a ouvir algumas rádios da cidade o dia inteiro e um novo mundo se abriu. Até então, meu conhecimento musical se resumia a Roxette e à coleção de LPs dos meus pais, constituida, na maior parte, de álbuns menores de gente maior como Ray Charles, Paul McCartney e Chico Buarque. Nada muito sério, ou nada que me despertasse muita atenção. Mas agora eu tinha ao meu alcance pérolas como Pump Up The Jam e Everybody Dance Now!. Poucas coisas sobreviveram (ainda bem!), como Mr. Jones do Counting Crows e What´s Going On do For Non Blondies. Obrigado, ladrões, sem vocês eu não teria conhecido o Vanilla Ice.
Nos anos seguintes, um grande amigo vindo de sampa me apresentou a Jovem Pan, o programa Pânico, e toda a coleção de Dance Music do mundo. Foram 4 anos de plagiadores inexpressivos como Double You e Wighfield na orelha, ao ponto de eu ouvir na tv um trechinho de Wonderwall e dizer, "ei, esses caras copiaram a música daquela mina do cd da Jovem Pan!"
Aos 16, mais amizades me apresentaram ao Bon Jovi, Aerosmith e Guns N´Roses. Todo mundo tem que começar por algum lugar, mesmo que seja por Always.
Ao mesmo tempo, com outros amigos, conheci o Heavy Metal do Metallica, o que me fez vender por uma ninharia todos os meus cds toscos. No Heavy Metal eu fiquei por um bom tempo, até um dia, quando varria as folhas do quintal e prestei atenção nos versos de uma música dos Beatles que meu pai estava ouvindo. As partes que me atingiram foram "sitting on a cornflake / waiting for the van to come" e "Elementary penguin singing Hare Krishna / Man, you should have seen them kicking Edgar Allan Poe". Tinha alguma coisa séria ali. Era mais interessante do que qualquer coisa que eu ouvia.
Por acaso, no cursinho, um amigo tinha um amigo que estava vendendo uns 30 cds. Peguei a lista e vi vários dos Beatles, vários do Pink Floyd, vários do Led Zeppelin, entre outras preciosidades. Curioso como estava com o rock clássico, levei uns 8. Até hoje eu me pergunto o que deu na cabeça desse sujeito. Seja lá o que tenha sido, agradeço todas as noites.
O caminho óbvio, então, era descobrir as referências de músicos tão bons. Blues! Com mais alguns amigos, virei frequentador dos escassos shows bluezeiros de Araraquara.
Então veio a ECA. Ah, a ECA... ela não me fez trocar o Led Zeppelin (até porque, lá toca bastante) por nada, mas me apresentou a coisas tão diferentes quanto Chico Science, Weezer e Dave Matthews. Certos amigos me apresentavam o Funk Como Le Gusta, outros analisavam Queen, e outros viajavam com Charlie Parker. E eu levava um pedaço de cada amigo pra loja de discos, cruzando referências, caçando as minhas próprias pérolas.
Hoje, se me perguntam que tipo de música eu gosto, respondo exatamente com a frase que eu detestava ouvir de pessoas que escutam música por inércia: "Eu? Sou bastante eclético."
02 Maio 2005
Dançando no escuro
A idéia era falar em como a luz (e principalmente seu produto, a imagem) é fundamental na nossa cultura (a humana, não a brasileira) em centenas de aspectos, principalmente na formação de símbolos que carregamos a vida inteira.
Mas daí eu fui ao show do Placebo.
Não que ele tenha sido um excesso de imagens, luzes e cores piscantes, foi até bem modesto, bem mais centrado na música. Aliás, cores havia poucas. A banda, preto e branco. O público, roxo, vermelho e azul nos cabelos e preto no resto, basicamente.
É que, pouco antes do show começar, depois de uma espera de quase 3 horas e 5 bandas iniciantes depois, naquele momento em que a multidão está cansada e impaciente e xinga e reclama e se espreme na ânsia de chegar mais perto do palco, uma garota de uns 20 anos com os braços apertados junto ao corpo, segurando o que parecia um feixe de canudos grossos entre as mãos, sorria e se esmagava na massa humana. Ela olhava pra tudo e pra nada ao mesmo tempo. Era cega, os canudos eram sua bengala retrátil (legal essa palavra, retrátil, vou usá-la mais vezes). Gritava, feliz, para alguém lá atrás, enquanto esperava a banda que tanto gostava.
Quando o show começou e o oceano humano deixou de ficar à deriva e se transformou em tempestade, com ondas de meio metro e rebentação perigosa, eu imaginei o que teria acontecido com a cega. Umas duas músicas depois, quando os mortos e feridos já tinham se retirado e curtir o show se tornou possível, não a vi mais.
Por que ela escolheu ficar na pista? As numeradas eram mais baratas, era menos quente e o som era o mesmo. Ela preferiu a massa, o contato, talvez ela buscasse o equivalente ao espetáculo visual no espetáculo físico. Talvez ela visse as coisas de maneira diferente, só pra usar um clichê do gênero.
Se é cegueira congênita, ela não tem memória visual, não criou um banco de referências baseado na imagem. Isso obviamente não quer dizer que ela não tenha nenhuma bagagem.
Na faculdade, desde o primeiro ano tenho lido textos de teóricos que enaltecem o texto escrito em detrimento de imagens, de sons, ou de qualquer outra coisa, alegando que praticamente toda a produção cultural vem (ou pode ter vindo) de textos-base, mais ou menos como uma música, que pode ser representada em partitura, ou um filme, que segue um roteiro.
Eu acho essa idéia bastante limitada. Limitada porque parte de um pressuposto que sugere que pensamos verbalmente. Eu não penso palavras. Se estou com fome, sinto fome, não aparece uma voz na minha cabeça dizendo n-o-s-s-a,--e-u--p-r-e-c-i-s-o--d-e--c-o-m-i-d-a.
Da mesma forma, também não penso imagens. Preciso ir ao banheiro e não me vem nenhuma foto de sanitário na cabeça.
Por isso a cega fã do Placebo não precisa da linguagem visual para curtir o show. Sorte que ela nem precisou ver a cara feia do baixista.
O texto, as imagens, a linguagem, seja ela qual for, é um código para transmitir idéias, mesmo que seja de mim para mim mesmo. Posso associar a idéia de mãe com sua imagem, com seu nome, com sua voz, mas não preciso de nada disso pra saber quem ela é. A linguagem organiza o pensamento, mas não o origina.
A comunicação perfeita seria de idéias pra idéias, sem precisar "traduzir" nada em códigos. Se é difícil conceber isso dentro de um único ser (eu precisei da linguagem para ligar idéias desconexas, como a luz e o show do Placebo, por exemplo), imaginar um diálogo de idéias puras vai além da minha capacidade. Torço pra que, se um dia alcançarmos essa empatia absoluta, o mundo não vire um grande marasmo. Um mundo onde baixistas posers reconhecem seus excessos deve ser bem sem graça.
07 Abril 2005
O Bem do Século
Pois bem, três deles, lá no post-mortem, devem ter filas quilométricas de admiradores todos os dias querendo cumprimentá-los (coisa que não deve ser muito problema, tempo eles têm): Os irmãos Lumière e Thomas Alva Edison. Listar todos os inventos e conseqüências dos inventos dos dois seria longo e cansativo, basta pensar que, se não fosse por eles este blog seria mimeografado (se bem que Edison inventou uma ferramenta que auxilia na velocidade do mimeógrafo), e todos ficariam cheirando as folhas por causa do álcool.
O terceiro personagem (ou a terceira personagem, como gostava minha professora de português), apesar do prodígio e talento, é praticamente um desconhecido da maioria. Winsor McCay era desenhista. Ele desenhava histórias em quadrinhos em jornais. Revolucionário, não? Sim, revolucionário. Ele fez coisas assim e assim. Ele fez o primeiro curta de animação, 4 mil desenhos à mão, incluindo o cenário. Ele excursionava para mostrar seus trabalhos pelos EUA e interagia com os desenhos, conversando com Gertie, a dinossauro, ao vivo. Ele influenciou a arte sequencial como poucos, ele merece um aperto de mão.
Acho ótimo quando descubro que tal personalidade escreveu sua grande obra, fez seu grande filme ou aprendeu a profissão na qual se tornou mestre, com mais de trinta anos. Little Nemo in Slumberland saiu quando McCay tinha 38 anos. Isso me dá esperança de ainda produzir alguma coisa útil. Odeio Mozart e seu virtuosismo de 4 anos de idade. Odeio Álvares de Azevedo, que já tinha escrito a obra de sua vida e até morrido com a minha idade. Não vou cumprimentá-los no Limbo. Vou ficar admirando, de longe... Mesmo porque, ouvi dizer que Mozart é meio excêntrico e não gosta de apertos de mãos.
Pensando agora, lembrei de mais um punhado de memoráveis desse mesmo período: Alexander Graham Bell, Albert Einstein, Sigmund Freud, Santos Dumont, Henry Ford... Boa safra.
23 Março 2005
Paulicéia Desvairada
Pois bem, chovia e eu me molhava no ponto de ônibus. Eu ouvia música no walkman e me preocupava com a integridade física do Saramago dentro da minha mochila, uma vez que, como já se sabe, chovia. Quando meus sapatos já estavam uns três tons mais escuros e minha camiseta já assimilava as gotas salpicadas, a chuva parou, mas só na metade esquerda do meu corpo. "Vai uma ajuda aí?" falou um homem mais ou menos da minha idade com um guarda-chuva. Eu disse um "opa, obrigado!" e tirei o fone esquerdo do ouvido, me preparando pra conversa.
Dez segundos, eu não disse nada. Nem ele. Vinte segundos, nada. Buscava assunto na memória, pensei em arriscar até um "e essa chuva, hein?", mas desisti. O guarda-chuva pingava no meu braço direito tudo o que não caía no esquerdo. Chegamos em 40 segundos de silêncio desconfortável. O ônibus chegou, ele subiu, eu fiquei. Me molhando.
Se eu fosse menos paulista... Se a necessidade de falar com o rapaz que foi educado com o guarda-chuva me incomodasse mais, se a curiosidade de falar com aquela bela estranha do ônibus me incomodasse mais do que o medo de incomodar ou de parecer bobo e a preguiça de tirar a bunda do banco encardido do coletivo, quem sabe o quanto eu não teria crescido. Quantas idéias eu perdi, quantos amigos eu perdi, por medo de perder o maldito Status Quo. Se eu fosse menos paulista...
14 Março 2005
Amoródio
E eu não me canso desse mundo.
Não consiguiria viver feliz em cidade pequena. Não consiguiria viver fora dos centros de produção cultural. Araraquara é limpinha. Araraquara é bonitinha. Araraquara é chata. Os poucos que se mexem pra fazer a vida andar por lá são frustrados pela burocracia ou pelo pouco público e acabam procurando outros ares, normalmente mais poluídos. Uma cidade onde o teatro fica fechado no sábado à noite, uma cidade que tem DUAS livrarias não merece muito respeito. Ainda mais quando uma delas é uma Nobel.
Em 10 milhões de pessoas, por outro lado, é fácil achar umas centenas que frequentam regularmente cinemas, teatros e exposições. Umas centenas que se apóiam pra produzir cultura e se acotovelam pra assistir cultura. Não sei aonde isso vai me levar, mas espero que fique entre Nova Iorque, Tóquio, Londres, Milão, Cid. do México, Paris e São Paulo.
02 Março 2005
Na minha época...
Ninguém fica irado por ter que sentar em móveis toscos, pois estes são considerados de muito bom gosto numa sala mais rústica.
Estão relaxando os que não arrumam suas coisas, e não os que estão de férias.
Queimar CDs é um ato cruel da inquisição.
Azeite é comida, não um estilo de vida.
A3 é sempre menor que A4.
Ai meu ciático.
14 Fevereiro 2005
Perdido
03 Fevereiro 2005
Gordinhos
Engraçado que eu não achei a notícia em nenhum site brasileiro. Achei até que o Lula vai fazer uma cirurgia pra tirar a tal carne esponjosa do nariz, o que, todos nós esperamos, vai ajudar a melhorar a respiração e a voz maltratada do nosso querido gordinho barbudo, mas nada de campanha anti-obesidade.
O que o mundo ganha com essas notícias? Se são verdadeiras, por que a imprensa brasileira não diz nada? Rabo-preso com a indústria de doces? Seríamos nós alvo de uma campanha difamatória para destronar a Gisele Bundchen do posto de top model mais importante do mundo? Ou seria um maquiavélico estratagema de Barbados, o destino turístico concorrente do Brasil no ranking mundial, para desviar a cota anual de turistas que buscam um lugar paradisíaco com pessoas magras?
De qualquer maneira, o que me preocupa mesmo é como a notícia do Lula ganhou nota mais alta que a maior invenção desde o tira-grampos, a torradeira que desenha a cara do ursinho pooh.
27 Janeiro 2005
Cantos obscuros
Engraçado como ela, palavra tão interessante, tenha saido só esses dias da casa de sua prima, a obscuridade. E saiu chutando a porta: do limbo pro caderno Mais! da Folha e pra capa da Veja na mesma semana, além de outras aparições esporádicas menos importantes em cadernos de opinião e blogs do país afora. Nem a Roseana Sarney conseguiu tanto (ela só conseguiu a Veja, coitada) nas prévias das eleições de 2002.Obscurantismo
1 estado de quem se encontra na escuridão, de quem está privado de luz
2 falta de instrução; ignorância
3 atitude, doutrina, política ou religião que se opõe à difusão dos conhecimentos científicos entre as classes populares
Foi o significado que entrou na moda ultimamente ou será que foi só um "copia do meu que eu copio do seu" entre jornalistas? Bom, com exceção de algumas horas no Rio de Janeiro uns dias atrás, não tem havido nenhum apagão significativo, portanto o significado núm 1 não deve ser. A ignorância nunca saiu de moda, as atitudes exclusivistas também não, o que inocenta os outros significados de causarem essa ressureição. O que nos deixa com a última alternativa...
Claro que, vira e mexe, o pessoal desenterra alguma palavra velha (vide tosco, balada, sinistro) e a transforma na gíria mais supimpa do pedaço, morou?, mas quando a imprensa começa a ruminar os próprios clichês a coisa começa a ficar preocupante. Nada contra a palavra obscurantismo, eu já estava mesmo cansado de ouvir reacionário, elitista ou simplesmente burro. Pena que é bem provável que daqui uns meses ela, cansada de ser usada tantas vezes em tão pouco tempo, vai cair no saco escuro de palavras esquecidas, pra fazer companhia pra muvuca, e vai esperar a próxima da lista, a tsunami chegar.
16 Janeiro 2005
Code 46
- Ni-Hao!
- Você tem um filho, nes pas?
- Isso mesmo.
- Chico ou Chica?
- Chico.
- Ele deve ser especial.
- Ele é especial.
- Todas as crianças são. Isso me faz pensar de onde vêm os adultos medíocres.
Sabe o Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley? Então, tenta misturar com a idéia de "lavou, tá novo" mental do Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Conseguiu? Tá, agora coloca o clima noir futurista do Blade Runner (não deve ser difícil, Admirável... também é futurista). Agora, por mais estranho que pareça, coloque pitadas de Lost in Translation, mas sem o humor. Ambiente tudo isso num futuro com poucas árvores, nenhum país, apenas Cidades-Estado absolutamente cosmopolitas, com pessoas de todas as raças, falando uma língua que é a salada de expressões estrangeiras do começo do post. As máquinas existem, exatamente do jeito que existem hoje: câmeras, caixas automáticos, identificadores, computadores. Nada de robôs andando pra todos os lados. E eu achando que Minority Report tinha uma visão de futuro realista...
São tantos os assuntos tratados no filme que e é impressionante que ele não descambe pra lado nenhum. Não é todo dia que aparece um filme tão completo, tão coerente e tão belo.
05 Janeiro 2005
Escreveu, não leu...
Divertido também é encerrar a manhã com as famosas coxinhas douradas de Bueno de Andrada. Sim, são famosas. São muito boas também. E são levemente douradas. Ficaram famosas quando o ilustre araraquarense Ignácio de Loyola Brandão dedicou-lhes uma crônica do Estadão, em 2001. Ficaram boas provavelmente quando ficaram douradas.
Enfim, filosofamos no bar das coxinhas naquele distrito bucolicamente esquecido de Araraquara, enquanto aguardávamos tão fina iguaria. Aguardávamos porque tínhamos pedido treze coxinhas, tiveram que fritar na hora. Aproveitei para ler a crônica, devidamente ampliada e emoldurada na parede do boteco. Infelizmente só achei uma versão dela para assinantes do Estadão, mas, quem se importa? Nem é tão brilhante assim... Em todo o caso, existe a comunidade das coxinhas no Orkut. Bom, li a crônica inteira, coisa de uns três minutos, e quando me virei, lá estava o velhinho, bermuda branca de médico à paisana, camiseta polo, sobrancelhas gigantes e brancas, com meia coxinha na mão, falando com a bajuladora dona do bar. Pediu mais cinco coxinhas. Ela calmamente pegou as que estavam no nosso prato esperando as outras e deu pra ele dizendo, "Ah, se é pro Loyola é pra já!". Sim, fomos roubados por um escritor famoso. Quantas pessoas podem dizer isso? Ainda por cima no próprio cenário de sua crônica!
Estou lendo umas histórias do Dostoiévsky, vou tomar muito cuidado, não quero nenhum russo mexendo no meu strogonoff.
26 Dezembro 2004
Manchetes
No western Os Imperdoáveis, um pistoleiro inglês chamado English Bob, depois de ler uma manchete sobre um atentado contra o presidente americano, provoca uns cowboys dizendo que os EUA deveriam ter uma rainha. "Ninguém atira numa rainha", "A honra e a majestade da realeza, você sabe... Já um presidente, por que não atirar num presidente?"
Daí eu me levanto e, ao checar meus emails, tropeço nessas manchetes da Reuters:
- Pesquisa mostra vitória de Yushchenko na Ucrânia
- Mortos no sudeste asiático já são mais de 11.000
- Cruz Vermelha pede ajuda imediata após tsunamis na Ásia
- Bush dá jogo de pratos de sobremesa à mulher no Natal
21 Dezembro 2004
Pipoca
1.Titanic (1997) $1,835,300,000
2.The Lord of the Rings: The Return of the King (2003) $1,129,219,252
3.Harry Potter and the Sorcerer's Stone (2001) $968,600,000
4.Star Wars: Episode I - The Phantom Menace (1999) $922,379,000
5.The Lord of the Rings: The Two Towers (2002) $921,600,000
6.Jurassic Park (1993) $919,700,000
7.Shrek 2 (2004) $880,871,036
8.Harry Potter and the Chamber of Secrets (2002) $866,300,000
9.Finding Nemo (2003) $865,000,000
10.The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring (2001) $860,700,000
Outro detalhe interessante é que esse top 10 é dominado por duas franquias literárias, Lord of the Rings e Harry Potter. Mas olhe só, enquanto o Frodo ganha mais e mais dinheiro a cada filme, o menino com o raio na testa faz o inverso, tendo o último filme (dizem que é o melhor. Eu não vi ainda) ficado lá atrás na 14a posição. Isso quer dizer que a história do hobbit ficou mais interessante a cada filme? Teve gente que foi ver O Retorno do Rei sem ter visto A Sociedade do Anel? Ou simplesmente é só um bando de nerds que gostou tanto dos últimos capítulos que pagou pra ficar 7 horas vendo duas vezes o úiltimo filme? E o bruxinho, piorou?
Pra fechar o post, nada melhor que dar uma olhada no Bottom 100, com os 100 filmes mais mal votados da história. Nossos conhecidos Street Fighter, Mulher Gato e Superman 4 estão lá, mas o mais legal é procurar filmes bizarros como Santa with Muscles, estrelando Hulk Hogan ou então o curioso The Brain That Wouldn't Die, que deveria ganhar um prêmio só pelo título. Santa Claus Conquers the Martians dispensa comentários. Se a gente se esforçar e conseguir 625 votos ruins pra Xuxa a gente consegue colocar ela na lista. Boa sorte.
16 Dezembro 2004
Vida na Favela
A vida na favela é estranha. Primeiro: tem muita gente lá. Muito mais do que deveria. Segundo: é um lugar organizado, por incrível que pareça.
Já passei por vários tipos de favelas, só hoje estive em duas, no Urubu e na Alvorada, do complexo do Alemão. A do Urubu é mais clássica, um morro, casas amontoadas entre a lama e as rochas, um bar aqui, uma padaria ali, tudo num clima meio preto e branco, meio cru, talvez pelo verde do matagal do morro. Já a Alvorada é diferente, é mais desenvolvida, mais colorida. Tem pelo menos dez vezes mais gente lá. Difícil achar um palmo de terra que não seja ocupado pelos milhares de casas, bares, mercados, locadoras, lojas de concerto de eletrônicos e igrejas, muitas igrejas, literalmente centenas delas. Nas ruelas estreitas, as kombis de lotação dividem espaço com o formigueiro humano, já que não existe calçada, e com os carros e motos dos traficantes e de uns poucos mais afortunados, mas que não podem ou não querem abandonar o lugar. Funk carioca é a trilha sonora predominante, permeado com uma música evangélica aqui e o som da novela da Globo ali. É um outro mundo, mais colorido que o Urubu, mas não tão onírico quanto a Cidade de Deus, onde o tempo pára e nem o barulho dos carros da via expressa ao lado consegue impedir o clima de dimensão paralela, de olho de furacão, aquela terrível sensação de que a calmaria aparente está prestes a desmoronar. Tudo isso controlado pelo tráfico, o Grande Irmão de todos os morros. Tanta gente ruim, mas, mais ainda, tanta gente boa, tanta gente enganada...
03 Dezembro 2004
Família Brasil
Por incrível que pareça, o que o nome tinha de incomum, seu portador tinha de comum. Viviam como o mais normal dos casais. Ele trabalhava num banco e gostava de futebol. Ela vendia cosméticos e gostava de... cosméticos. Mas não em excesso.
Se algum deles tivesse curiosidade suficiente, descobriria que o absolutamente mediano Sr. Schumacher (tão mediano que preferia ser chamado de Jorge mesmo) descendia, na verdade, do extraordinário Piotr Rabinovich Svidrigáliov, um dos maiores oradores do judaísmo da época do tzar Alexandre II. Um homem tão extraordinário que, após conseguir a confiança da comunidade judaica (ao ponto de ser designado Rabino de toda São Petesburgo) e o respeito e apreço da própria corte católica ortodoxa do tzar, se aproveitou de uma brecha burocrática e embolsou, sob a proteção de seus amigos da corte, dinheiro suficiente para sustentar gerações. Infelizmente sua fortuna não durou muito, já que o tzar fora assassinado e seus amigos da corte estavam ocupados com assuntos mais importantes do que garantir proteção a um Rabino mulherengo. Sim, ele também era mulherengo. Aliás, esta peculiaridade foi o que desencadeou seu exílio voluntário na Prússia. Sua esposa desaprovava firmemente seus maus hábitos, principalmente se eles deixassem de ser acompanhados pelo bom hábito de dar presentes caros para se redimir. Por conta disso, ela o rejeitou e destruiu sua reputação na sinagoga com artimanhas que passaram pelo óbvio boca-a-boca feminino até a histórica interrupção da leitura pública da Torá por um panelaço que o assombrou por décadas.
Pobre (pobre não é o termo correto, seu colchão nunca se esvaziara completamente) e literalmente sem amigos, partiu para a Prússia, onde começou sua nova vida como humilde sapateiro (daí sua nova alcunha, Shumacher). Adquiriu alguma reputação na sinagoga local devido a sua incrível capacidade discursiva, mas nunca revelou sua verdadeira história. Ainda assim foi "empurrado" por seus novos amigos, tão impressionados com sua eloqüência e carisma, ao posto de líder local. Mais uma vez, por culpa agora de rixas com o imperador prussiano por causa de desvio de impostos, abandonou sua nova esposa e fugiu para o lugar mais distante que já tinha ouvido falar, outra cidade com nome de santo, São Sebastião do Rio de Janeiro, Brasil.
Aqui, este extraordinário homem se rendeu aos encantos da terra fértil, da comida boa e da filha de escravos mais bonita que já teve notícia. Esqueceu da Rússia, esqueceu da Prússia, esqueceu até de sua eloqüência e passou a deixar-se levar pela vida mansa do país tropical. Só não se esqueceu que a melhor forma de se levar essa vida mansa era mamar nas tetas do governo. Foi um dos melhores funcionários do Banco do Brasil por mais algumas décadas. Seu filho seguiu seus últimos passos, exceto pela falta do adjetivo "melhores". Seu neto, Jorge, do avô só tem o (falso) nome e a profissão.
E ela ainda se pega sonhando em ser a sra. Magalhães Gibraltar.
29 Novembro 2004
Million Dollar Baby
25 Novembro 2004
Jogo da vida
Vôlei, basquete e afins são bem mais dinâmicos, sempre tem pontos, sejam a favor, sejam contra. É uma sequência tão frenética de acertos e erros que quase não dá tempo de respirar. Ou de refletir.
O futebol é mais lento... você corre, olha o lance, pára, acha que a bola vai chegar... não chega. Mais ou menos quando um amigo seu te liga e pergunta, e aí, como vão as coisas? Você pára, pensa... ah, nada de mais. Um trabalho aqui, uma balada com amigos ali, falar de política, comer um sanduíche, todo o planejamento e a expectativa de melhora de vida que NÃO acontece do dia para a noite... nada de mais.
Ah, fale por você mesmo - alguém pode dizer - a minha vida não é tão chata, seu perdedor medíocre. Bom, não é chata. Só é lenta. E se há alguma vantagem, é poder parar pra refletir.
Acho que é por isso que não gosto de futebol. Já tenho realidade demais todos os dias. Agora, com licensa, vou armar uma jogada e esperar um gol pra amanhã.
15 Novembro 2004
Clichês ao molho pardo
11 Novembro 2004
Onírico
04 Novembro 2004
O Futuro da Nação
Enquanto o governo não consegue implantar o revolucionário programa "Troque sua arma por uma mini-DV", podemos começar com "Troque seus CDs do Zezé di Camargo* por ingressos de cinema". Para facilitar, as próprias bilheterias dos cinemas recolheriam os CDs, que seriam reciclados para a fabricação dos DVDs dos mesmos filmes em cartaz. Teremos um futuro promissor.
* Válido somente para Zezé di Camargo, toda a sua família, todos os seus amigos, sertanejos ou não, todo o Funk Carioca, Axé, pagode, bandas popularescas de todos os gêneros e qualquer tipo de produção cultural prejudicial à saúde mental.
30 Outubro 2004
Advogado do Diabo
Será mesmo? Acho que às vezes a mídia usa esse politicamente correto com propósitos não tão corretos assim, políticos ou não. Explico: Quantos filmes sobre atrocidades contra judeus você já viu? Quanto tempo os jornais ficam sem falar alguma coisa sobre a ditadura militar aqui no Brasil? Existe algum meio de comunicação no país que tenha, alguma vez, falado alguma coisa boa de George W. Bush? Não estou dizendo que nenhum deles defenda causas erradas, alguém em sã consciência dificilmente iria defender Hitler e seus amigos. No entanto, evocando aquela melhor frase do Nelson Rodrigues, "toda unanimidade é burra".
A mídia é unânime em certos assuntos, e a minha preocupação não é a injustiça contra os vilões, mas sim a parcialidade com que são tratados os mocinhos. Seria plausível (fora da palestina) um filme que mostrasse os podres da hegemonia semita na mídia americana e em Israel? Você patrocinaria um filme que mostrasse o outro golpe de estado que estava sendo planejado por socialistas do Brasil se não acontecesse o militar antes? Eu também não gosto do Bush, mas peraí, parece que não nos dão nem a chance de escolher. Vomitam podres dele na tela todos os dias, e mesmo assim, 50% dos eleitores americanos têm (ou acham que tem) argumentos suficientes para votar nele. Será que são todos tão alienados assim? Eu sinceramente espero que não. Pelo bem da opinião pública.
É nessas horas que o chato do Diogo Mainardi é útil. A mídia torce pro time certo, só é um pouco fanática demais.
22 Outubro 2004
Sociedade inteligente
O menininho chega em casa, cansado da companhia opressiva dos seus colegas e procura quem lhe dê a atenção e os cuidados merecidos, alguém que não fale dele, mas para ele, alguém que lhe distraia das confusões da vida, sua amiga, a televisão. Lá ele aprende como todos gostam dele, estão sempre sorrindo, sempre falando com ele, com todo o carinho e respeito que ele merece, além de ter sempre um desenho legal passando. Aquilo sim é que é vida, todas aquelas cores, aqueles brinquedos que se mexem e que não quebram como os dele, brinquedos grandões e bem feitos, não feiosos como os que estão em seu quarto. Ah, se ele pudesse viver lá dentro, junto com tanta gente legal, tanta coisa pra ver... Ele pediria à mãe para leva-lo ali, mas ela ainda não chegou do trabalho. Alem disso, ela sempre está cansada. Tudo bem, já vai começar outro desenho.
20 Outubro 2004
Top pop
O grande mal é que parece que nos ofendemos quando uma música, filme, ou livro cai na boca do povo. Antes ele era só meu, agora eu tenho que dividir com eles? Como assim? A gente não vive dizendo que quer ver mais cultura na tv? Estive pensando em um exemplo de boa programação que fez sucesso. Pra mim, nada foi mais importante que os programas infantis da cultura. Do Ra-Tim-Bum ao Beakman, eles formam boa parte da minha bagagem cultural até hoje. Daí na USP eu encontro um monte de gente que também não perdia um Mundo da Lua, que adorava ouvir o Marcelo Tas (e continua acompanhando até agora) e que vivia repetindo as piadinhas sarcásticas do rato Lester. Parece que fez sucesso, e essa legião toda está relativamente bem encaminhada.
Não pode ser tão ruim assim encher o povo de Radiohead, que, diga-se de passagem, eu só conheci naquele comercial do Carlinhos. Tente não se indignar quando passar o caminhão de gás tocando Für Elise, na melhor das hipóteses alguém gosta tanto que vai atrás de aprender piano. Na pior, agradeça por não ser alguma da Ivete Sangalo.
15 Outubro 2004
Seleção Natural
Mas será que conquista mesmo? Acredito que a principal função desses debates acaba não sendo aumentar o número de partidários, mas sim fortalecer os atuais eleitores. Sim, porque quando tucanos ouvem a petista embonecada falando, automaticamente uma espécie de filtro se instala, o filtro de “eu sei que ela só vai falar bobagens, então vamos ver aonde eu posso quebrar o argumento dela”, um filtro preconceituoso, a tal ponto que nada de bom vai ser absorvido. Por outro lado, quando fala o tucano-mor de sorriso amarelo, outro filtro, também preconceituoso (num “bom” sentido, neste caso), aparece – o filtro do “olhe como ele vai acabar com os argumentos fracos dela e se mostrar o melhor candidato sem nem suar”, e nenhum deslize dele vai ser levado em consideração. Exatamente o mesmo - obviamente de forma inversa - acontece com os partidários da prefeita. Acabamos por ouvir quase que somente o que queremos ouvir, e relevamos qualquer informação desagradável. E isso em qualquer situação. Se sou fumante e defensor dessa indústria, por exemplo, vou ver qualquer manifestação anti-tabagista com um sorriso cínico no rosto, procurando falhas e incongruências em suas propostas enquanto recebo com prazer qualquer defesa, mesmo que fraca, ao meu modo de pensar.
Assim, sem idoneidade no julgamento, nosso mundo se torna menor, e a possibilidade de sermos surpreendidos com um argumento mais sensato da oposição aumenta bastante. Moral esopiana: Antes de condenar o lobo, tente vestir a pele dele por um tempo.
04 Outubro 2004
Posers e Eufemistas
Não tem maus atores, tem atuações cruas.
Não tem comparações ridículas, tem metáforas existencialistas.
Não tem imagem tremida, tem dinamismo e cumplicidade com os personagens.
Não é longo e arrastado, é meticuloso e angustiante.
Não tem um roteiro raso, tem uma proposta simples.
Não tem um diretor drogado, tem um gênio visionário.
E, acima de tudo, um filme de arte não é chato, você é que não entendeu.
01 Outubro 2004
Multi-eu
Mesmo assim, como toda sociedade, nem sempre todos pensam da mesma maneira. Nem todos tem a mesma opinião sobre tal e tal assunto. E pior, isso não acontece apenas entre "classes", como células do fígado querendo uma coisa e as malditas células do cérebro querendo mais caipirinha. Há divergência também entre células do mesmo tipo. Isso acontece especialmente com os neurônios, os administradores e a elite cultural dessa nação-corpo.
O curioso é que, até onde se sabe, não há uma parte específica do cérebro encarregada da memória, por exemplo. Ou seja, todos os neurônios compartilham da informação, e, da mesma forma que cada um de nós testemunha um fato de maneiras diferentes, os neurônios também acabam por registrar mais de uma versão de um acontecimento, por exemplo. Isso pode retornar para o mundo como incoerências, idéias conflitantes e até mesmo disfunções de personalidade. Assim, não tem um homenzinho na minha cabeça, tem alguns milhões deles, que se agrupam e formam partidos, comitês, ongs e lobbys que, apesar de nem sempre se entenderem, convivem em relativa paz dentro de um eu, que, por influência deles, ora é de esquerda, ora de direita, ora só quer dormir e comer, ora se preocupa com as lamúrias da existência. Fica mais interessante quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, afinal, o regime não é representativo e nem tem uma cadeira de presidente pra alguém sentar.
24 Setembro 2004
Versão brasileira
Acredite ou não, esse é o Mel Gibson. Na Globo, pelomenos. Todas as falas do William Wallace são, na verdade, desse tiozinho aí (que sim, parece o Saddam. Ou aquele ator mexicano). Tudo bem, o cara trabalha legal dentro das limitações da dublagem, mas peraí, como eu vou dizer se gostei ou não da atuação do Mel Gibson se eu ouvi o bigodudo ao invés dele? O mais engraçado é a baixa rotatividade dos dubladores. Se eu fosse cego e estivesse assistindo a um filme na Globo e mudasse pro SBT acidentalmente (não vi o controle remoto ao sentar), corro o risco de achar estranho que a esposa traída e humilhada pelo marido policial de repente tenha dito "Os orcs estão se aproximando! Corram!".
Que tal deixar o áudio original e "dublar" os filmes visualmente? Afinal, ficaria mais brasileiro, geraria mais emprego no país, etc... Podemos até deixar o figura aí escalado pro papel do Mad Max 4. Chamamos a Regina Casé pro papel da Angelina Jolie e o Jô Soares pro Eddie Murphy (afinal, ninguém melhor que um comediante pelo outro, não?).
Ouvi dizer que, lá pelos anos 70, foi firmado um acordo entre algumas emissoras pra exibição de filmes dublados, uma questão de inclusão social, afinal, até os analfabetos tem direito a um bom filme. Mesmo que seja pela voz do bigodudo.
23 Setembro 2004
Um lado da história
Não tinha? Quer dizer que não havia roubos, assassinatos sanguinários, estupros, suicídios, lugares perigosos, pobreza? Álvares de Azevedo foi mais criativo do que se imagina, então, já que ele "inventou" atrocidades do nível da necrofilia, que aconteciam aqui mesmo, em São Paulo. E na antiguidade então, nem se fala. Tem tanto massacre descrito na Bíblia e em outros registros antigos que faz qualquer grupo decapitador iraquiano parecer os irmãos metralha e o Bin Laden, o Bozo.
O fato é que hoje nós ficamos sabendo do que acontece no mundo. O acesso à informação é muito maior, e isso nos dá a sensação de que o mundo é o nosso quintal. Eu assisti às torres gêmeas caindo, ao vivo! Foi tão próximo! Mas espera, eu nunca vi o World Trade Center. Nunca fui a NY pra conferir. O incrível é que posso ver pela tv o quanto mudou a paisagem da região, ou pior ainda, posso até sentir o vazio que ficou no lugar, posso sentir que tudo ao meu redor mudou depois daquele dia, sem nunca, nunca ter posto o pé na Big Apple. Se eu vivesse num lugar ou época sem comunicação de massa, pra mim um incidente daquele não ia ter a menor diferença.
Ah, a ignorância salvadora... se eu não sei que aconteceu, então não aconteceu.
Assim, pra quem vê Cidade Alerta, São Paulo é a selva de pedra antro da violência e da tragédia. Pra quem acompanhou as comemorações dos 450 anos da cidade no início do ano, a cidade é bonita, cosmopolita, educada, cultíssima, e é até rica em áreas verdes. É a mesma cidade. É o mesmo mundo.
Pensando bem, sim, a violência mundial aumentou bastante. Mas a bondade e a solidariedade também. A população foi quem cresceu. Agora são mais de 6 bilhões escolhendo fazer coisas boas e ruins, as chances de atrocidades acontecerem são as mesmas das boas ações.
18 Setembro 2004
Decifrando garatujas
Vivemos num mundo de símbolos. Riscamos algumas linhas no papel e dizemos que elas representam algo tão simples quanto uma pedra ou tão grande quanto deus. Essas marcas no papel podem não ser tão bonitas ou tão parecidas com o que elas representam, mas ninguém reclama disso. E nem fica só nisso, a própria imagem que chega aos nossos olhos não é mais que luz refletida no objeto que vemos e nosso cérebro simplesmente associa que aquela luz o representa. As "provas concretas", tão necessárias para a ciência, não são mais do que símbolos que convencem os cientistas de tal e tal fato. Muitas vezes são bem sutis, como provar a existência de um planeta apenas através de um pequeno desvio na órbita da estrela que o sustenta.
Seguindo o mesmo princípio, por que ver a Deus seria a prova cabal da existência dele? Ele provê muito mais símbolos que representam sua existência, muito mais coisas que atestam (simbolizam) que ele existe. Sim, a interpretação depende da leitura. Assim como o planeta lá de cima. Acredito que só precisamos nos adequar a esses símbolos, saber interpretá-los como uma criança se adapta ao alfabeto. Nascemos num mundo onde as regras sociais já estão traçadas (o alfabeto já estava por aí em 1982). Idem para as regras naturais. A questão é saber onde procurar.
17 Setembro 2004
Wireless
Ou isso, ou a gente aprende a tirar proveito de uma fonte que transmite enorme quantidade de energia quase pronta para o uso pro planeta inteiro, o Sol.
10 Setembro 2004
Testemunhal do Orkut
09 Setembro 2004
Bacon II
Dick Cheney insiste na ligação da Al Qaeda com Kevin Bacon. A Al Qaeda foi treinada pela CIA, que foi criada por Harry Truman, que lançou a bomba atômica criada pelo famoso Manhattan Project que foi um filme estrelado por John Lithgow que estava em Footloose com Kevin Bacon.
07 Setembro 2004
Traduttore, traditore
Essa facilidade não existe ao assistir Adeus Lenin ou ao ler Crime e Castigo. Ali, sou 100% dependente de uma terceira pessoa (não eu, não o autor) para entender a obra. E eu me apego. Acredito em cada sílaba. É quase como se, hoje, ao me encontrar com o tradutor do velho Dosta, formado aqui na FFLCH, eu lhe cumprimentasse ansiosamente, "Como vai São Petesburgo? E o trabalho escravo na Sibéria, influenciou muito o senhor na sua obra?"
Ao mesmo tempo, se a expectativa foi maior que o resultado da leitura, sempre pode-se apelar pra um "Ah, a tradução é que foi uma droga", ou "O autor tem uma linguagem única, intraduzível. Tente traduzir Guimarães Rosa pra você ver." O que muitas vezes é verdade. Cada idioma é único e blá, blá, blá, e a solução seria virar poliglota. Ou mais, afinal, pra se entender completamente a linguagem de um povo, deve-se viver com ele, de preferência desde a infância, ter seu caráter influenciado por um estilo de vida. Ou seja, pra assimilar direito a produção cultural mundial a gente precisa nascer muitas vezes. Ou se contentar com o "filtro" de uma Monica Pessegueiro do Amaral.
29 Agosto 2004
O Espelho Interior
Eu passo por um problema assim (não o do gêmeo mau, só o do estranhamento mesmo) toda vez que ouço minha voz gravada. Não sou eu! Engraçado ser tão diferente. Dizem agora que estão inventando um fone de ouvido que vai transmitir o som através dos ossos do rosto, exatamente o jeito que ouvimos nossa própria voz. Curioso... Vai ter artista mais intimista vendendo CD "compre e ouça como eu ouço!"
Essa voz interior é ainda diferente da voz do nosso pensamento. Sabe, aquela voz absoluta, neutra, a voz que aparece quando lemos, ou quando formamos frases na mente. Esse "timbre" se apropria de qualquer coisa que lemos. O andamento do texto muda com o autor, mas a voz é sempre a mesma. Outro dia tentei ler uma crônica do Ubaldo imaginando a voz dele (tão característica, grave pra caramba e com sotaque baiano) ao invés dessa voz padrão. Não é a mesma coisa. Meu cérebro já leu tanto Ubaldo com a voz interna que ler com a voz verdadeira parece falso, o texto não corre direito. É como se essa voz fosse nossa maneira de filtrar e se apropriar do mundo à nossa volta. Dar nosso toque pessoal. Digerir. Mesmo que a imagem saia meio embaçada, é a imagem que molda meu próprio mundo.
Espírito Olímpico
22 Agosto 2004
Pioneirismos
Eu quero saber é dos primeiros que realmente têm a ver com a minha vida. Por exemplo, quem foi o primeiro a soltar um 'aaaaah' depois de uma golada refrescante? Quem foi o primeiro a fazer uma ligação telefônica errada? Ele disse 'desculpe, foi engano'? Quem teve a brilhante idéia de enfiar o dedo numa colméia e provar aquele sabor que quase compensa o ataque enfurecido das abelhas? Quem foi o primeiro a sentir a dor indescritível de topar com o dedinho na quina da mesinha de centro da sala. Que palavrão ele falou?
Quem foi o primeiro morto por acidente de carro? Não se sabe, mas se sabe quem foi o primeiro a matar com um carro. Foi o magnata da imprensa Edward R. Thomas, que por acaso foi o primeiro marido da esposa do Cole Porter (informação utilíssima, como podem notar). Coitada da vítima... morreu indigente pra história.
Não que isso mude muito o jeito que levamos nossas vidas, mas pelomenos dá pra compartilhar a vitória ou o infortúnio desses ilustres anônimos.
16 Agosto 2004
Elogio ao Grotesco
José de Alencar - chato
Edgar Allan Poe - legal
Olavo Bilac - chato
Álvares de Azevedo - legal
Kenny G - chato
Black Sabbath - legal
Capitão América - chato
Wolverine - legal
As Pontes de Madison - chato
Laranja Mecânica - legal
Será que tem a ver com a rebeldia da juventude em querer ir contra todos os princípios que aprendemos com os pais? Será que gostamos do amargo porque ele nos faz aproveitar melhor o doce? Adoramos quebrar regras, desafiar o sistema, derrubar paradigmas, enfim, queremos ser diferentes. E por que ainda assim queremos estabilidade financeira, uma família, plantar uma árvore? Nos arrependemos de nossa rebeldia? Eu me incluo 100% nesse perfil e a resposta que mais me agrada é a de que queremos achar novos meios de fazer coisas velhas, o tal inconformismo. Mas falta muita coisa ainda.
11 Agosto 2004
Networking
Através dos amigos aprendemos a lidar com outras opiniões, recebemos conselhos, conhecemos coisas novas, brigamos jogando WAR, afogamos as mágoas, nos unimos contra as dificuldades... enfim, é uma mão-na-roda.
No fim das contas nossa personalidade é pouco mais que a soma das personalidades dos nossos amigos. Quem nunca se flagrou falando aquela frase típica do seu amigo? Ou imaginando o que ele faria nessa ou naquela situação? Ouvindo uma música e prestando mais atenção porque um amigo é fã daquela banda?
Pois bem, uma das características mais valorizadas da amizade esses dias é o "prestar favores", especialmente na área profissional. Quer um emprego em tal área? Faça amigos nessa área, quem sabe um deles "indica" você. Então, mãos à obra, façamos nosso social, apelidado agora de Networking.
Como sempre, a internet está aí pra ajudar e o Orkut é o melhor (e praticamente o único) lugar pra procurar aquele amigo ideal pra se escorar na escalada para o sucesso profissional. Seja fã daquele cara que você queria como chefe, encha a lata daquela sortuda que está trabalhando aonde você queria de coraçõezinhos e fique torcendo.
Se você quer alguma coisa na área de cinema, já sabe quem procurar: Kevin Bacon, o maior coadjuvante da história de Hollywood. Sim, ele fez pelomenos dez filmes que você com certeza conhece, mas nem sabia que ele estava lá (Sexta-Feira 13 parte 1, por exemplo). Seu networking perfeito o levou a trabalhar com centenas de astros do cinema em produções de todos os tipos. Tanto assim que foi descoberta a Conexão Kevin Bacon, uma espécie de jogo onde se consegue ligar qualquer ator, atriz ou diretor de Hollywood com Kevin Bacon em até 5 conexões. Por exemplo, vamos tentar o Tom Cruise. Ele foi dirigido por Steven Spielberg em "Minority Report". Spielberg, por sua vez, dirigiu Tom Hanks em "Catch Me if You Can". Tom Hanks trabalhou com Kevin Bacon em Apollo 13. É divertido até. Tem até um site que faz a procura automática, o Oráculo do Bacon.
Kevin Bacon deveria ser o patrono do Orkut.
09 Agosto 2004
A Profecia
Seria só mais uma entre milhares de críticas aos reality shows se não tivesse sido publicada em 27/07/1993
Eu desejaria vida longa a Bill Waterson, mas como ele parou com o Calvin, pode morrer velho mesmo.
Efeito Borboleta
Lá pelo fim do primeiro ano de trabalho, os dois são transferidos para a mesma casa, lá em Freguesia, bairro carioca bem interessante (mais interessante ainda com a Cidade de Deus nos calcanhares).
Certa noite, num dos poucos momentos em que dá pra relaxar depois do dia cansativo, ao olhar as relíquias que compõem a mesa de Scalco, Singer vê uma daquelas fotos de família que todo missionário carrega pra não se esquecer de quem é. Na foto, entre outras pessoas, uma garota se destaca: cabelos pretos, olhos claros, pele branca e sorriso largo. Linda. Singer tem a reação mais esperada de um missionário: "Scalco! Quem é essa daqui??" "É a minha prima", o outro responde com um sorriso no canto da boca. "Bonita, né? Ela tá sem namorado, quer escrever pra ela?" Singer pensa um segundo, man, she's hot! But she's brazilian, I'll never meet her. So what, it's just a letter. The worst thing she can do is not to write me back. Man, she's hot... e responde "Claro!"
Ontem eu estava em Jundiaí e tudo estava nos conformes: Noivo nervoso, sem saber exatamente o que iria acontecer na cerimônia levemente diferente da americana. Noiva atrasada, o que deixava o noivo mais nervoso. Noiva feliz no vestido de cauda longa. Noiva mais bonita que qualquer convidada. Noivos felizes, com alianças e beijo sem-cerimônia.
Na festa que se seguiu, Singer comenta com Scalco: "Se você tivesse feito alguma besteira e não tivesse ido pra missão, você teria estragado o meu futuro!"
Se Scalco não tivesse ido pra missão, se não tivesse sido mandado pro Rio, se não fosse pra Freguesia, ou até se aquela foto da prima saísse um pouco tremida e ele resolvesse não levar foto nenhuma consigo, Singer nunca conheceria Rebecca. Ele voltaria para Montana, se casaria por lá, teria filhos ruivinhos e sardentos e talvez viesse passear no Brasil de vez em quando. Rebecca, quem sabe, se casaria com um paulista, nunca aprenderia inglês e perderia a chance de ter filhos ruivinhos e sardentos.
Preste atenção em todas as suas escolhas. De repente, até o cocô do cachorro que você pisou ontem pode contribuir para mudar o destino da humanidade. Isso sem falar no cachorro, no que o cachorro comeu, daonde veio a comida, do fazendeiro que plantou...
05 Agosto 2004
Inconsequência
Ah, a fragilidade humana... Inveja, ganância, luxúria, ira e tantas outras coisas tão comuns em toda a história da humanidade são causadas por um egoísmo burro, um egoísmo que não quer o melhor para si, um egoísmo que quer o melhor para si agora. Vamos tirar vantagem agora, vamos mentir um pouco agora, nos satisfazer agora, dormir agora um pouco mais, "vencer" agora. Eu vivo o momento, sou "ishperrto", amanhã é outro dia, pra que se preocupar? Conheço um cara que viveu assim a vida inteira e morreu com 90 anos...
Daí chega alguém e ensina "amai-vos uns aos outros" e todo mundo aplaude "é isso aí, temos que nos amar!" quando o que é entendido é "é isso aí, temos que nos amar a nós memos!". Eu digo que te amo pra poder me amar melhor. Eu sou seu amigo até onde posso tirar vantagem disso. Afinal, eu penso no futuro, não sou imediatista. Estou pensando no bem estar meu e da minha família.
Bem estar até onde? Um mês? Dez anos? O que são cinco segundos de prazer ou vinte anos de comodidade financeira frente a uma vida inteira de remorso?
Estamos em pior situação que a criança que quer agora, pois podemos saber as consequências das nossas escolhas. Simplesmente escolhemos esquecer delas.
01 Agosto 2004
31 Julho 2004
Epítetos
Do melhor amigo ao cliente ou ao mendigo da rua, todos nos dão novos nomes e até novas personalidades. Dois depoimentos sobre uma mesma pessoa podem pintá-la como a Dorothy ou a Bruxa Má do Oeste. Em cada cabeça, uma identidade nova. Mas quem somos então? Um cara sincero e bom amigo como o Joãozinho pensa; engraçado, mas um pouco irritante como acha a Gertrudes; um moleque barulhento e mau pagador como afirma o síndico do prédio? Não dá pra sermos a soma de todas essas imagens, já que isso nos transformaria em monstros paradoxais, fieis traidores, adultos infantis... Sermos a intersecção dessas imagens também não resolve, afinal, isso deixaria de lado aqueles detalhes importantes que só aparecem de vez em quando na nossa personalidade. Talvez a pergunta que importa seja quem você gostaria de ser? Ou como você gostaria de ser lembrado?
Dando uma olhada em uns obituários em um jornal (aliás, quem só tem o jornal pra se guiar acha que só morrem judeus no Brasil, de tantos obituários dedicados a eles), me ocorreu: E se você morresse agora, quem você seria? O que apareceria no seu obituário? Marido e pai dedicado, uma pessoa suuuuuuuper fofa!, descobridor da penicilina, pão-duro desgraçado? Ia junto uma cruzinha? Estrela de Davi? Pretzel? (!?) A logomarca da sua empresa? Vá se preparando, junto com o testamento deixe um recado com as instruções em algum lugar visível, pra uma eventualidade. Aproveite e escolha um epíteto, pra facilitar. José, o contristado. Carlos, o calvo. Ou o meu favorito: Pepino, o breve.
Escolha quem você quer ser, mas faça jus ao seu bom gosto. Afinal, com qual memória você se importa mais? A impressa na lápide ou a impressa na alma - mesmo que seja a sua?
28 Julho 2004
O rei e suas metades
O Veríssimo uma vez contou uma estória sobre um rei que foi cortado ao meio para se livrar da metade de baixo, os "baixos instintos". Enquanto a metade de cima, nobre e elegante, governava o reino, adquiria cultura e pensava, a metade de baixo corria pelo palácio, descontrolada, vivendo pelos seus prazeres.
No final das contas, no leito de morte, o rei se deu conta de que toda a sua (numerosa) posteridade era, na verdade, filha dos baixos instintos e assim morreu, desconsolado.
Triste, não? Já que o naturalismo nunca foi meu estilo preferido, prefiro pensar assim:
Estamos nesse mundo pra aprender a controlar nossos corpos, controlar as paixões e instintos. Através do que o rei considerava nobre e belo, o intelecto, aprender a utilizar o corpo da maneira que mais vai explorar seu potencial em curto, médio, longo e longuíssimo prazo (para isso precisamos de um modelo, um exemplo, arquétipo, que seja. Mas isso fica pra uma próxima). Precisamos perceber que o que o rei considerava "baixo", se usado da forma correta, se torna a maior vantagem que temos por aqui. É mais ou menos como o dinheiro. Dê na mão de quem não sabe usar e ele acaba em pouco tempo e sem trazer benefícios reais. Aprender não é fácil, requer paciência e cuidado, mas vale a pena.
27 Julho 2004
Lacuna Inc.
Primos sunitas dessas técnicas milenares são fazer palavras-cruzadas, comer compulsivamente ou dormir, todos com seus efeitos colaterais (destaco o último, onde sonhos ultra-realistas podem fazer você reviver aquela situação que tanto lhe atormenta das piores maneiras possíveis, principalmente se você tiver comido compulsivamente também).
Se você busca uma solução definitiva, o link abaixo pode ser exatamente o que faltava. Através de uma revolucionária técnica não-cirúrgica de eliminação de memória, o Dr. Howard Mierzwiak e sua equipe do Lacuna Inc. proporcionam o esquecimento definitivo daquele vexame que você deu, daquela briga com o namorado e até daquele seu gatinho que subiu no telhado. Finalmente, a ignorância que traz paz e alegria à mente aflita.
O caso é que, ao contrário da filosofia deste blog, muitas vezes achamos que só depois de "apagar" informação da nossa mente vamos ser mais felizes. Vomitar a humanidade, que seja. Começar do zero, formatar a máquina. Descartar o que não deu certo. Quem sabe funcione. Igual a deletar dados do computador. Você acha que está tudo limpinho, mas sempre tem jeito de ressucitar o danado. Uma vez o McGuyver conseguiu até restaurar um papel carbonizado e ler a informação que salvou o episódio, vejam só.
Acho melhor arquivar tudo direitinho e usar até os arquivos mais inconvenientes, mesmo que seja como vacina contra novas ameaças.
Masoquismo
A dúvida só aparece nos 3 últimos minutos do filme, mas é essencial pra obra inteira. Responder "claro que não" parece sensato, mas tente ser sensato depois da cena do cobertor. Tente. Eu não consigo.
17 Julho 2004
Sinopses
Quem viu o filme sabe que não é bem isso. Ou não é só isso. Esse é o mal das sinopses, aquele resumo do filme estampado atrás das caixinhas de dvd ou nos guias dos jornais. Elas quase nunca fazem jus ao filme, seja para melhor ou para pior. Confiando nesses pequenos pedaços publicitários de mentira, muitas vezes você acaba levando gato por lebre e achando que o filme novo do Steven Segal vai "elevar seu espírito" ou que a nova versão da cinderela com aquela loira da mtv vai ser o "filme da temporada" Pior ainda são os comentários (sempre jabá) de uns jornais americanos obscuros estampados em letras garrafais nas capinhas "EXCELENTE!!!" - The Cincinatti Enquire "DIVERSÃO PURA!" - The Baton Rouge Expositor
O prêmio de pior sinopse vai para Cidade dos Sonhos (também merece menção honrosa na categoria Pior Tradução de Título) o Mulholland Drive, David Lynch. Infelizmente não consegui achá-lo na net, mas quem alugar o dito cujo (que, aliás, é incrível) vai sofrer pra não rir com o texto no verso do filme. Não dava pra ser mais fora do clima da obra. Aposto que muita gente alugou esse filme por engano, esperando alguma comédia romântica qualquer ou mais um filminho pipoca.
Resumir tembém é uma arte, e precisa de talento e treino. Isso vale pros Trailers também.
Senão, acabamos como Woody Allen resumindo Guerra e Paz (aquele monstro de mil volumes): É sobre uma guerra. Na Rússia.
14 Julho 2004
13 Julho 2004
o não-post
Todos os dias, 144 bilhões de horas (24 pra cada um) são disponibilizadas pra gente aqui debaixo se mexer, resolver os problemas, produzir (pra garantir as próximas 144 bilhões de horas), enfim, pra gente progredir. Alguns desses bilhões são gastos todos os dias do mesmo jeito, dormindo, comendo, escovando os dentes, ficando preso no maldito engarrafamento, etc. Mas ainda sobra um bocado que a gente simplesmente joga fora.
Pra onde vai todo esse tempo, todas essas possibilidades? Haverá mesmo um jardim dos caminhos que se bifurcam? Será que lá está o livro que eu não escrevi nas infinitas horas de ócio não-criativo? Ou o carro que não comprei com o dinheiro que não economizei dos lanches e revistas de videogame? Quem sabe até a família que não tive por não ter cumprimentado aquela garota na rua? E meus irmãos, incontáveis filhos de meus milhares de pais potenciais (Seria você um deles?)? Ao invés de postar aqui nesse blog, eu poderia estar ordenhando vacas no Iêmem, fazendo terapia em Nova Iorque ou voando no meu carro movido a ondas cerebrais que alguém inventou no seu tempo livre. Quem sabe já estaria morto, envenenado por aquela bactéria que, em outra realidade, foi exterminada centenas de anos antes.
Da próxima vez que eu me deitar e fizer a triste constatação, "puxa, hoje eu não fiz NADA de útil" vou me lembrar que estou colaborando com o desperdício de idéias e realizações mundiais. Dois segundos depois, vai me ocorrer que também estou colaborando pela preservação da humanidade, já que não terei usado meu tempo pra construir nenhum tipo de arma de aniquilação em massa. E vou dormir tranquilo.
09 Julho 2004
Aplicação da Lei de Murphy núm. 5358
08 Julho 2004
Adolescentite
Um dos pontos principais na "filosofia" punk é o repudio a coisas ultra-elaboradas como o rock progressivo. Ah, não, ninguém me avisou que eu não podia ouvir Ramones e Pink Floyd na mesma meia hora. Should I stay or should I go? Revolucionário ou erudito?
E se eu usar gel, não vou ficar com cara de mauricinho? Essa camisa é meio gay, não?
Isso, vou falar com ela assim que ela passar. Passou. Bom, pode ser uma outra hora também. E se não der certo? Ah, eu nem queria mesmo. Ou queria?
Ei, acorda! Não é legal ser indeciso. E, claro, você TEM que ser legal. Deviam lançar um livro que ensina como ser legal. Quê? Já lançaram? Auto-ajuda? Xi, então não dá. Auto-ajuda não é legal.
E se eu não quiser ser legal?
Fora de cogitação. Ser legal é um requisito essencial para a vida em uma sociedade competitiva. Pense bem: se você não é legal, você não tem amigos (ou, no máximo, tem amigos não legais). Sem amigos, você não consegue, competitivamente, uma indicação pra um emprego, onde você teria que continuar sendo legal para todo o sempre pra não morrer de fome. Sem o emprego, a chance de morrer de fome em poucos meses (ou de virar um vagabundo com 32 anos às custas do pai) aumenta além da imaginação. Sem falar da namorada. Vagabundo ou morto, e ainda por cima solteiro você vai continuar não legal ad eternum. Seja legal, or die trying.
Você também pode crescer e ver que não é bem assim.
06 Julho 2004
A insustentável leveza do óbvio ululante
As beira calminha do riacho
escutaro o berro cabuloso de um povo macho
Então o sol de esturricar mamona que troxe a liberdade
Brilhou no céu do país bem na hora
O parnasianismo é ou não é um saco?
05 Julho 2004
A lei da compensação
Agora, se considerarmos perfeito algo completo em si mesmo, que explora seu potencial ao máximo, aí resolvemos parte do problema. Os possíveis defeitos são compensados por todas as outras virtudes mais o fato de não dar pra melhorar muito mais sem ter que começar do zero. Assim, a Ana Paula vai pro pódio (de tenis, pra proteger o pé) e os meninos de Orlando despencam.
Não sei se o novo homem-aranha merece o Olimpo, mas é certo que a lei da compesação vale (e muito) pra ele. Ceninhas meia-boca como a do povo de New York se colocando corajosamente entre o Aranha e o Dr. Octopus, que acabara de tentar matar todomundo, e dizendo "você vai ter que passar por cima de mim antes de pegar o Homem Aranha!" "E de mim!" "De mim também!" são quase apagadas pela hilária cena do elevador ou a incrível cena do Dr Octopus no hospital. A cara do Sam Raimi. E viva a liberdade do diretor.
30 Junho 2004
I'm Jack's lack of notion
O que me faz lembrar:
All work and no play makes Jack a dull boy
27 Junho 2004
Incoerência
Os exemplos são quase infinitos, do vegetariano que come ovo e do médico que fuma até o cientista que diz buscar a verdade pura, mas faz vista grossa para qualquer coisa que ele não entenda, ou não caiba no padrão que ele estabeleceu.
É, o mundo é mesmo mais complexo do que um livro do José de Alencar.
Felizmente.
Agora, deixa eu ir embora que eu tenho que lutar contra a massificação da cultura depois da minha aula de marketing.
Assino Embaixo (ou se inveja matasse...)
Console-se com o seguinte pensamento: se não tivesse reprimido nenhum impulso e feito tudo que deu vontade de fazer, na hora em que deu vontade, você hoje estaria preso, ou gravemente desfigurado. Civilização é autocontrole. Só chegamos vivos a este ponto porque resistimos à tentação de dizer aquela verdade, enterrar o nariz entre aqueles seios fazendo "ióim, ióim", jogar tudo no 17 ou sair dançando com o PM. Todo homem (mulher, menos) é a soma, não das suas decisões, mas das suas hesitações, ou do que, pensando melhor, decidiu não fazer. Nunca lamente o caminho não tomado, ele provavelmente levaria à ruína - ou à fortuna, mas ela não lhe faria bem.
Quanta gente você não teve vontade de esgoelar, e no fim apenas sorriu e limpou sua lapela? Quanto jornal você não teve vontade de amarrotar e jogar no lixo, desejando que em vez do jornal fosse o articulista, mas se conteve, e passou, educadamente, à página seguinte? Fez bem. Ignore o aviso de que a repressão de impulsos leva a manchas na pele, cavernas no fígado e sono agitado do qual você acorda soqueando o travesseiro. Acredite, pensar melhor é muito mais saudável. Uma retrospectiva de tudo que você imaginou fazer e não fez o convenceria disto: foi ou não foi mais prudente abandonar aquele plano de dinamitar o Ministério da Fazenda e, em vez disso, mandar uma carta com ironias pesadas sobre o modelo econômico aos jornais? A orelha dela estava ali, a poucos palmos da sua boca, por que não dar uma mordidinha, só porque vocês estavam numa roda com outros, inclusive o marido dela, seu patrão, e ninguém entenderia quando você explicasse que confundira a orelha com um canapé? Mas você recuou, civilizadamente. Fez bem. Eu, por exemplo, resisti ao impulso de fugir de casa para ser aviador. Poupei-me da frustração de descobrir que eles não aceitavam pilotos de caça com menos de seis anos de idade. Fiz bem. Corri atrás de uma menina para dizer que a amava, pensei melhor e apenas esbarrei nela, esperando que ela interpretasse a colisão como uma declaração. Deixei-a sentada no chão, chorando, mas escapei do ridículo, pois eu nem sabia seu nome. Pensei vagamente em estudar arquitetura, como todo mundo. Acabaria como todos que eu conheço que estudaram arquitetura, fazendo outra coisa. Poupei-me daquela outra coisa, mesmo que não tenha me formado em nada e acabado fazendo esta outra coisa.
É verdade que às vezes me pergunto como teria sido se eu não tivesse reprimido o impulso de ir estudar cinema em Londres. Eu hoje poderia ser, sei lá, um dos melhores lavadores de prato do Soho. Mas agora é tarde.
LUIS FERNANDO VERISSIMO
O Estado de São Paulo
31/7/01
23 Junho 2004
Érreagá
Mas muito, muito mais difícil de se fazer, eu imagino, deve ser aquele tipo de teste de RH pra dinâmicas de grupo. Imaginem a quantidade de conexões mentais necessárias pra, a partir de uma pergunta como Se você pudesse estar sendo uma peça de roupa, que peça você seria? se chegar à conclusão de que fulano vai estar ou não vai estar se encaixando nos padrões de nossa empresa. Será que o fato de eu ser uma calça jeans é melhor do que ser um espartilho? E se eu gostar de comida árabe e tiver um abajur azul em casa, isso me torna (ou dá indícios de que sou) um egoísta-narcisista-que-não-sabe-trabalhar-em-equipe-e-que-vai-causar-problemas-estruturais-na-empresa-se-contratado?
Não conheço muito de psicologia, mas isso me cheira a engambelação...
Ah, nada pessoal contra o processo seletivo da jr. Está bem light, nesse sentido.
21 Junho 2004
Dos idiomas
Inglês, por falar nisso, sempre me incomodou. Palavras duras, curtas, feias, seriam ideais para xingamentos, se não houvesse os idiomas mães dos nomes feios, o primo alemão e o ríspido russo. O inglês deve ser bom pra alguma coisa... rock e blues por exemplo.
Acaba de me ocorrer, se eu pudesse usar um idioma pra cada ocasião, seria mais ou menos assim:
Fala normal: fiquemos com o português, por conveniência
Sussurrar: francês, sem dúvida
Gritar, lutar: fácil, japonês
Xingar: Russo (filho de um Svidrigáliov!!)
Dar bronca: Alemão
Contar uma história, cantar, ser gentil com alguém: Italiano
Contar piada: Hebraico (aquele monte de shhh já é engraçado sozinho, querendo dizer algo então, deve ser hilário)
Discutir com alguém: Árabe (quase tão eficiente quanto o japonês na hora de gritar)
Confundir alguém: Chinês (troque uma letra em "o gato está dormindo" e você arranja "estou com hemorragia")
Sugestões?
19 Junho 2004
Oráculo
Imaginem um pobre coitado camponês, desdentado, pai de oito filhos, quatro mortos, servo do vassalo do conde do duque do senhor feudal de um reino que viria a ser a Albânia recebendo a visita de um senhor vestindo Armani que o avisa que há mais no mundo do que sua vã ignorância suspeita:
- Hein?
- Oráculo. É assim que se chama. Todo o conhecimento do mundo reunido em um só lugar e com uma interface fácil de usar. É só fazer uma pergunta e ele dá a resposta exata.
- Ele diz aonde foi parar o Eustácio?
- Quem?
- Meu cachorro. Ele foi atrás de um coelho na floresta e...
- Ah, sim. Provavelmente.
Imaginem a cara de embasbacado dele. Por onde ele começa? Quanto ele é capaz de assimilar? O que ele vai fazer com tanta informação? E, principalmente, o que, por todos os santos, ele está fazendo na seção de cerveja?
É mais ou menos assim que eu me sinto quando entro na internet. Caramba, eu tenho o mundo nas minhas mãos! Posso achar aquele solo do Benny Goodman que eu sempre quis ouvir, fazer cursos online de photoshop e quark, mandar um email pra Madonna, analisar fac-símiles de hieróglifos egípcios, conseguir um bom acervo musical, uma boa biblioteca, pegar filmes (ops!), ler um tratado sobre as qualidades nutricionais da minhoca, qualquer coisa que amplie o meu mundo, que me faça descobrir que há muito mais por aí do que eu imaginava. Por exemplo, acabo de descobrir que, na Malásia, um grupo de assaltantes interceptou um carro-forte de uma forma, digamos, original: jogando curry em pó nos olhos dos seguranças. Puxa, meu mundo era bem menor antes dessa informação, quando esse valioso tempero só tinha propósitos malignos quando algum cozinheiro vingativo carregava a mão em alguma receita. Vou sair de casa de olho em algum porta-tempero suspeito preso à cintura do próximo que passar por mim.
Esse mundo cada vez maior que se mostra pra gente precisa de um manual à altura.
Claro que há de se levar em conta que pelo menos um pedacinho daquele oráculo é constituído da sabedoria do próprio camponês, mesmo que seja a da seção de cerveja. Cá está esta crônica.
17 Junho 2004
Paranóia
(...) À tarde fomos visitar uma mulher que nos tinha pedido ajuda no dia anterior. Devia ter uns 40 anos, disse que trabalhava numa operadora de tv a cabo, que teve os documentos roubados e disseram que ela não existia mais, mas ela sabia que existia. Ela foi no consulado americano e eles a filmaram no circuito de segurança, portanto, ela existia, mas as pessoas estavam manipulando informações, a mídia sempre mente, sempre. Disseram que ela era falsa, que, na verdade, no passado ela foi uma médica alemã que matou muitos judeus e que ela deveria pagar por seus crimes, mas não, ela não cometera nenhum. Ela era branca, mas o filho dela estava sendo forçado a encrespar o cabelo e escurecer a pele e um dia, um clone do Nelson, amigo dela, apareceu pra ela, mas ela sabia que era uma cópia, e ela foi assaltada tantas vezes, mas, desculpe, seus dentes... ah, seus dentes! Uma vez, o filho dela, as unhas dele...
15 Junho 2004
Rótulos
Ahn?
Bom, pelomenos no que se refere ao nome do movimento... Bossa Nova, Nouvelle Vague e New Wave significam exatamente a mesma coisa: A Nova Onda. E se nos permitirmos alguma licensa poética, podemos encaixar aí também o Gláuber e o Linkin Park, ambos representantes do Novo alguma-coisa.
Será que os jornalistas culturais são tão sem criatividade assim? Ou será que essa onda nova varrendo o que é velho é, na verdade, uma idéia encrustrada no inconsciente do ser humano desde que certo cidadão teve seu barraquinho arrasado pela maré e resolveu construir algo inovador no lugar?
O que ninguém suspeita (pobres incautos), é que, enquanto não se construir longe da praia, num alicerce mais firme, a onda nova sempre vai ser apagada da lembrança por uma mais nova.
13 Junho 2004
Redescobertas
O Problema das redescobertas, ou descobertas tardias, é que não dá pra se sentir nem tão burro quanto os que não sabem, nem tão esperto como os que já descobriram há séculos.
Assim sou eu e os códigos html/ccs.
12 Junho 2004
O Dia Depois de Amanhã
aham, isso também.
hum, teoria interessante, será que tem um mínimo de respaldo científico?
vice presidente pode ser malvado, presidente, nunca...
é, claro, vai acontecer isso agora.
mina bonita, parece a Alessandra Negrini mais nova.
PUTZ, essa onda foi legal...
tédio
tédio
boa autocrítica, perdão da dívida externa em troca de asilo político...
caramba, a família do cara só tem herói! Até a mãe salva um menininho com câncer!
tédio
aham, ele vai ter que cortar a corda pra salvar os outros...
ai ai...
mais tédio
fim
11 Junho 2004
Deste lado da rua
Nossas vidas seriam mais suportáveis se as pudéssemos viver só depois da terceira revisão.), comento um filme antes de digeri-lo, assim, ainda com a química do filme no sangue, ainda com o cheiro de pipoca no nariz e a música na memória.
Talvez isso seja bom, pois O Outro Lado Da Rua, do Marcos Bernstein, deixa impressões de vários sentimentos que podem evaporar após uma noite de sono. Mérito dos atores, sem dúvida, Fernanda Montenegro e Raul Cortez (que depois do avô libanês com trejeitos do meu avô de Lavoura Arcaica virou meu ator brasileiro preferido) "transpiram" os personagens, seguram firme nos muitos closes do diretor, e fazem uma cena de sexo na 3a idade honestíssima, sem música, só com os barulhos de beijos, roupas e respiração que são constrangedores quando não se está "no clima". A cena não é melhor nem pior que a do Alguém Tem Que Ceder, embora seja bem diferente. Mérito também do diretor e da produção, que fizeram uma história enxuta e sincera, filmada com sensibilidade e sem exageros. Eles também não caem na tentação de mostrar a praia de Copacabana mais de uma vez, viva!
Policial (claramente inspirado em Janela Indiscreta, mas sem cair no clichê), romance, drama e até comédia, o filme pode não ser grande, mas é bom. Bom porque aperta alguns botões na alma que ficam totalmente intocados em O Dia Depois de Amanhã, por exemplo.
10 Junho 2004
Borgs e o conhecimento hereditário
Os Borgs, espécie alienígena de andróides, tem pelo menos uma vantagem sobre os reles humanos, a mente coletiva. Tudo que um deles sente, os outros milhares (milhões?) sentem também. "Espera!", alguém diria, "Isso não é vantagem. Isso tira uma das melhores características da humanidade, a individualidade, a personalidade única de cada ser." Mas o que forma o indivíduo não são as experiências que ele passa, e sim o modo como ele encara (filtra) essas experiências. Assim, mesmo sentindo as mesmas coisas, cada um teria uma impressão diferente do acontecido. Então, com um mínimo de noção (ah, necessária noção!), ninguém pintaria com menos precisão que Da Vinci, ou menos paixão que Picasso, o Bush, conhecendo o passado, não daria mais armas pra gente que vai se tornar problema pro mundo no futuro, e, de uma forma mais prática, eu poderia estar curtindo o JUCA mesmo estando aqui trancado no apê...
Good Grief...
